Suicídio: falar é a melhor solução

O problema é de saúde pública. Dados da Organização Mundial da Saúde apontam que o suicídio é a terceira causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos. É também a sétima causa de morte de crianças entre 10 e 14 anos de idade. Durante muito tempo, acreditou-se que falar de suicídio incentivaria o surgimento de novos casos. Hoje, especialistas defendem que é o contrário: abordar o assunto pode ser a solução, pois abre caminho para que quem está em sofrimento saiba identificar o que sente e onde buscar ajuda.

“É importante que a gente fale sobre isso, que fale de uma maneira preventiva mostrando que há muitas alternativas”, explica o psiquiatra da área da Infância e Adolescência do Hospital Universitário de Brasília, André Salles. Essa abordagem deve ser cuidadosa, sem julgamentos, agressividade ou menosprezo, incentivando o jovem a falar sobre seus sentimentos. A Organização Mundial da Saúde lembra que, quando uma criança ou jovem manifesta comportamentos suicidas, está comunicando suas dificuldades em resolver problemas, lidar com o estresse e expressar emoções e sentimentos.

O tema é complexo e, por isso, é difícil apontar as causas de um comportamento suicida. Mas, geralmente, ele está associado a transtornos mentais. Daí a urgência de se identificar situações assim e oferecer ajuda para quem está em sofrimento. “Se a gente pensar que mais de 95% das pessoas que cometem suicídio estão em vigência de um quadro psiquiátrico, por si só identificar o quadro e tratar já minimiza muito essa possibilidade. Existem tratamentos eficazes, não só psiquiátricos, mas psicológicos e comunitários, que fazem com que a pessoa se restabeleça e esses pensamentos diminuam e deixem de existir”, observa André Salles.

Como falar com crianças e adolescentes

Quando houver necessidade de conversar sobre o assunto, é importante lembrar que a abordagem é completamente diferente para crianças e adolescentes.

As crianças não devem receber mais informação do que necessitam. Muitas vezes, elas não têm compreensão exata da irreversibilidade da morte, nem do suicídio. Os especialistas recomendam que, para esse público, fale-se do sofrimento humano como uma tristeza profunda. Para fortalecer as crianças, é preciso ajudá-las a lidar e a entender melhor as emoções.

“Nesse caso, as estratégias seriam de psicoeducação, de educar a criança a saber reconhecer, a dar nome às próprias emoções, a comunicar suas emoções, a desenvolver habilidades sociais para busca de ajuda, contar para alguém responsável ou de confiança”, sugere a psicóloga Larissa Vasques Tavira, pesquisadora do sofrimento psíquico e comportamento suicida.

Os adolescentes, por sua vez, têm melhor noção sobre conceitos como morte e suicídio. Nessa fase, temas como a automutilação e o próprio comportamento suicida podem ser trabalhados com profundidade. É preciso enfatizar a necessidade de o jovem pedir ajuda caso a própria morte seja um pensamento recorrente.

Segundo especialistas, uma boa forma de abordar o tema nas escolas é de forma coletiva, com atividades lúdicas, palestras, rodas de conversas com orientadores pedagógicos, promover espaços de saúde e campanhas, adotar políticas anti-bullying, ter uma parceria com a família para criar uma ponte de comunicação. Também é preciso divulgar meios de prevenção e onde procurar ajuda.

Prevenção

Alguns fatores podem proteger as pessoas de comportamentos suicidas. Boa autoestima, resiliência, capacidade de resolução de problemas, capacidade de adaptação a situações adversas, suporte familiar, bons vínculos sociais e comunitários, religiosidade, ausência (ou tratamento) de doenças mentais são alguns deles.

A escola é um dos elementos centrais na vida das crianças e adolescentes. Por isso é tão importante que ela seja um espaço de afetividade e fortalecimento das relações.

Sinais de alerta

– mudança significativa de comportamento ou personalidade (agressividade, irritabilidade, apatia, pessimismo, alterações do sono, alterações alimentares);

– queda brusca do rendimento escolar;

– isolamento, baixa autoestima, excesso de ansiedade;

– abuso de álcool e/ou drogas;

– histórico de transtorno mental;

– desejo súbito de concluir ou organizar coisas e deixar mensagens aos amigos e parentes.

Mitos comuns sobre comportamentos suicidas

Quem quer mesmo se matar não fala sobre suicídio. Mito. Boa parte dos indivíduos que cometem suicídio falam ou dão sinais de suas intenções. Todas as ameaças devem ser levadas a sério;

Perguntar sobre pensamentos suicidas pode estimular a pessoa. Mito. Mesmo que o assunto não surja de forma espontânea, perguntar sobre esses sentimentos ajuda a pessoa a se sentir acolhida, aliviando a tensão e angústia, proporcionando melhores possibilidades de encontrar ajuda;

O suicídio é sempre impulsivo e acontece sem aviso. Mito. O ato pode parecer impulsivo, mas pode ter sido planejado por tempos. Muitos indivíduos suicidas manifestam comportamentos ou mesmo comunicam sua intenção antes de consumarem o fato.

Quem tem ideias suicidas quer mesmo morrer e não há nada a fazer. Mito. A maioria dessas pessoas partilha seus pensamentos com pelo menos uma outra pessoa, ou liga para um médico ou uma linha telefônica de emergência. Isso é avaliado por especialistas como prova de ambivalência, não de empenho em se matar.

O que evitar

A Organização Mundial da Saúde tem orientações sobre a abordagem do tema pela mídia, que podem ser aplicadas no âmbito escolar:

– não abordar o tema com sensacionalismo, glamourização ou de forma pejorativa;

– não fazer a divulgação de métodos;

– não fazer leitura de cartas suicidas;

– sempre que abordar o tema, citar os serviços de prevenção ao suicídio, como o Centro de Valorização da Vida (CVV);

– falar sobre os sinais de alerta que indicam sofrimento psíquico;

– incentivar a busca de ajuda.

Importância da família

Em casa, o recomendado é que os pais estejam atentos aos comportamentos dos filhos. Caso apresentem qualquer grau de sofrimento ou sinal suicida, acolha e converse. Se a criança ou adolescente já pensou em morte, se já pensou em acabar com a vida, se já fez algum plano, é fundamental buscar o auxílio de um profissional.

Os especialistas reforçam que ter uma rotina, fazer ao menos uma refeição com todos reunidos, ter um diálogo aberto e dedicar momentos aos filhos é muito importante e saudável.

Além disso, é importante que os responsáveis mantenham supervisão sobre o tempo exposto às telas e monitorem o conteúdo de acesso às redes sociais, principalmente dos adolescentes. Também é extremamente necessário estabelecer uma relação de proximidade e interesse pela vida do adolescente e da criança. A chave é uma relação pautada no respeito, disciplina e amorosidade.

Procurando ajuda

Oferecer uma escuta atenta é algo que pais e educadores podem e devem fazer, inclusive para conseguir encaminhar o jovem a algum serviço especializado em saúde mental.

O Centro de Valorização à Vida (CVV) oferece uma escuta qualificada gratuita durante 24 horas por dia, 7 dias por semana para pessoas que desejem falar sobre seus sentimentos. A ligação gratuita é pelo número 188.

Na rede pública, os serviços de atendimento em saúde mental são organizados em RAPS – Rede de Atendimento Psicosocial – composta pelos Serviços de Atenção Básica (Postos de Saúde, Programa de Saúde da Família), Serviços de Emergência (Hospitais, UPAs, SAMU) e serviços específicos, como ambulatórios especializados e os CAPS – Centros de Atenção Psicossocial.

Psicólogos e psiquiatras podem fazer o diagnóstico e indicar o melhor tratamento para cada situação. É importante vencer a resistência e o estigma de buscar esses profissionais para o acompanhamento necessário.

Todos esses serviços são complementares e podem realmente fazer a diferença na vida de alguém.

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2 Comentário(s)

  • by Helena Zabot Antero postado 16/09/2019 18:23

    Estamos no mês de setembro amarelo, mês da prevenção contra o suicídio.Adorei a pauta do assunto, serve para trabalhar com crianças e adolescentes.

    • by Turma do Plenarinho postado 19/09/2019 12:44

      Que bom que gostou, Helena! Este é assunto delicado, difícil de abordar, mas que precisa ser discutido! Abraços da Turma!

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