Conversando sobre consumismo com crianças

Há três datas que são aguardadas com muita expectativa por boa parte das crianças: o aniversário, o Dia das Crianças e o Natal. O propósito desses dias tão especiais deveria ser a celebração da vida, da infância e da fraternidade. Mas o que realmente anima a garotada é a possibilidade de ganhar aqueles brinquedos incríveis anunciados no vídeo da internet ou no intervalo do desenho ou da série na TV.

Em vez de embarcar no burburinho da publicidade, que tal aproveitar essa oportunidade para refletir e bater um papo com a meninada sobre consumismo, sustentabilidade e valores humanos? Confira as dicas a seguir!

1. O real significado das datas comemorativas

Aproveite a proximidade de uma data explorada comercialmente (como o Dia das Crianças, por exemplo) para conversar com as crianças:

  • Por que acham que é necessário comemorar essa data?
  • O que originalmente motivou a criação deste dia.
  • Algumas datas surgiram para celebrar, mas depois viraram oportunidades para empresas aumentarem suas vendas. Conhecem exemplos de datas assim? (Dia das Mães, dos Pais, dos Avós, dos Namorados…)
  • Que outros significados e sentidos uma data como o Dia das Crianças pode receber? (celebração da infância, do direito de brincar e de ser criança etc.)
  • Quais outras formas de comemoração podem ser criadas em substituição à compra de presentes? Carinho e presença valem como presentes?

2. De onde vem esse brinquedo?

Peça para as crianças fazerem uma pesquisa sobre o seu brinquedo preferido. Do que ele é feito? Quem o fabricou?

Cerca de 90% dos brinquedos produzidos mundialmente são feitos com algum tipo de plástico, um derivado de petróleo que demora cerca de 450 anos para se decompor. Em outras palavras, quando um brinquedo vai parar no lixo, ele vira poluição para o solo e para as águas.

Então não pode mais ter brinquedo de plástico? Não necessariamente. Mas é importante começar a encarar os brinquedos de uma maneira mais crítica, pensando no impacto ambiental que eles causam.

Também é interessante pensar no que fazer quando o brinquedo perder a graça. Uma opção é repassá-lo a irmãos ou primos menores ou doá-los a crianças em abrigos ou creches comunitárias.

3. Entrou um, sai um

Quem tem brinquedos demais fica feliz demais, certo? Errado. Crianças que acumulam brinquedos têm tantas opções que acabam desenvolvendo ansiedade e dificuldade de manter o foco. A acumulação, aliás, é uma das faces do consumismo. Para combater este mal desde cedo, é bom estimular o hábito de, sempre que a criança ganhar um brinquedo, escolher um que esteja encostado para doar.

4. Trocar é mais divertido que comprar

Já ouviu falar em feira de troca de brinquedos? É um encontro em que crianças levam os bonecos e jogos que não querem mais e trocam livremente com outras. Em tempos de pandemia, a recomendação de evitar aglomerações dificulta a realização desses eventos. Ainda assim, é possível pensar em formatos menores e mais controlados – uma troca entre colegas de uma mesma sala ou entre parentes, por exemplo. O que importa é mostrar que trocar ou compartilhar brinquedos pode ser mais divertido que comprar.

5. Melhor que brinquedo, é brincar!

Brincar é fundamental para o desenvolvimento infantil. É assim que a criança expressa a sua criatividade e descobre como solucionar problemas. E nem precisa comprar brinquedo para isso! Usando sucata e imaginação, é possível inventar muita coisa legal. Que tal montar instrumentos de percussão com latas? Ou um jogo de damas com papelão e tampas de garrafa pet? Ou fantoches com as meias que estão sem par? O importante é se divertir!

6. Cuidado com a publicidade infantil

Desde a publicação da Resolução nº 163/2014, do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente – Conanda, a publicidade voltada à infância diminuiu bastante.

Ainda é possível vê-la em alguns canais infantis de TV por assinatura. Na internet, ela aparece de formas sutis, como nos vídeos de unboxing, em que crianças (ou, mesmo, adultos) retiram brinquedos novos da caixa e apresentam pecinhas e acessórios. Esses vídeos normalmente contam com o patrocínio de empresas que fabricam e comercializam brinquedos, mas muitas vezes isso não é contado para os internautas.

É importante iniciar um diálogo com as crianças explicando o que é publicidade e quais são os seus objetivos. Chame-as para refletir sobre os recursos utilizados para encantar crianças: as cores, o uso de personagens queridos, a fantasia. Esclareça porque a mensagem voltada à criança é nociva: porque ensina valores distorcidos (ter passa a ser mais valorizado do que ser), estimula o consumo excessivo e a sensação de que nada é o bastante. Leia mais sobre consumismo aqui.

7. Legislação brasileira sobre publicidade infantil

Ainda não há legislação específica para regular a publicidade voltada à criança. Apesar disso, o Supremo Tribunal Federal tem entendido a prática como abusiva, a partir da interpretação dos seguintes marcos legais:

  • Constituição Federal – O artigo 227 determina a responsabilidade compartilhada entre famílias, Estado e toda a sociedade (o que inclui as empresas) em assegurar os direitos das crianças, com absoluta prioridade.
  • Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA (Lei nº 8.069/1990) – Reconhece a criança como pessoa em especial fase de desenvolvimento físico, social e emocional e busca garantir o seu melhor interesse em qualquer tipo de relação;
  • Código de Defesa do Consumidor – CDC (Lei nº 8.078/1990) – Define que a publicidade dirigida a crianças, por se aproveitar da deficiência de julgamento e experiência desse público, é abusiva e, portanto, ilegal;
  • Marco Legal da Primeira Infância (Lei nº 13.257/2016) – Determina a proteção da criança contra toda forma de violência e pressão consumista e a adoção de medidas que evitem sua exposição precoce à comunicação mercadológica.

Com informações do Programa Criança e Consumo

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