A doce Cora Coralina

Ilustração com fundo em tons de cor de laranja. No centro, uma mulher idosa de cabelos grisalhos presos para trás. Tem pele clara, com rugas espalhadas pelo rosto e sorri. Ela veste roupa florida em tons claros e segura um jarro de onde saem letras que se espalham pela imagem.

 

Quem, na Cidade de Goiás/GO, não conhecia os doces da senhorinha do casarão à beira do rio Vermelho? Apesar de ser doceira de mão cheia, foi por meio das palavras que Cora Coralina ganhou o Brasil. A poetisa, que publicou seu primeiro livro com quase 76 anos, nasceu Anna Lins dos Guimarães Peixoto em 20 de agosto de 1889.

Aninha era uma criança feia, de aparência frágil. Seu pai faleceu pouco tempo depois de ela nascer, e ela era a penúltima, de quatro irmãs. Veja só o que ela disse sobre a infância, em entrevista para um documentário: “Eu não era compreendida como criança. Não havia nos adultos daquele tempo o conhecimento do que era criança, dos direitos de ser criança. E todos queriam me torcer e me enquadrar dentro daquele padrão, o critério deles era o certo e o melhor. De modo que eu não sabia o que era ser feliz ou infeliz”.

Como boa parte das moças daquela época, Aninha só pôde frequentar a escola por quatro anos. Mas foi o suficiente para que descobrisse as letras e, com elas, a forma de expressar seu espírito livre e rebelde. Aos 14 anos, deu a si mesma o nome Cora Coralina, com o qual passou a assinar os contos e poemas que publicava em periódicos da cidade.

Pouco depois, começou a frequentar Clube Literário Goiano. E, em uma das reuniões, conheceu Cantídio Tolentino de Figueiredo Bretas, advogado e chefe de polícia. Os dois se apaixonaram, mas o relacionamento não era bem visto. Naquele tempo, o divórcio não existia e, portanto, Cantídio ainda era casado, aos olhos da Lei. Para o escândalo da cidade, em 1911, Aninha foi embora com aquele homem, passando a viver no interior de São Paulo como sua mulher.

Por 45 anos, ela viveu longe de sua cidade natal. No estado de São Paulo, casou-se oficialmente com Cantídio, criou suas filhas e filhos, enviuvou. Chegou a publicar uma ou outra contribuição em jornais interioranos, mas muito pouco. Naquele tempo, seus escritos ficavam guardados, à espera de virem à luz algum dia.

E então, em 1956, já com os filhos criados, ela voltou sozinha à Cidade de Goiás para refazer sua vida. Já não era mais Aninha – assumira definitivamente o nome de Cora Coralina. Para se sustentar, começou a fazer doces. Com o dinheiro das vendas, conseguiu comprar de volta o casarão à beira do rio, onde nascera e se criara, e lá viveu os anos seguintes de sua vida.

O primeiro livro publicado

Depois que enviuvou, em 1934, Cora mudou-se para a capital paulista com os filhos e começou a trabalhar vendendo livros da Editora José Olympio. E foi justamente por essa editora que publicou o seu primeiro livro, “Poemas dos becos de Goiás e estórias mais”, em 1965. A obra, que teve a segunda edição publicada pelas Oficinas Gráficas da Universidade Federal de Goiás, chegou às mãos de Carlos Drummond de Andrade, que se encantou com sua simplicidade, beleza e autenticidade. Bastou um grande elogio do escritor publicado no jornal para que todo o Brasil começasse a ler e a admirar Cora Coralina.

Os últimos anos

Cora publicou mais três livros, “Meu livro de cordel”, “Vintém de cobre – Meias Confissões de Aninha” (que lhe valeu o prêmio Juca Pato) e “Estórias da casa velha da ponte”. Em 1983, recebeu o título de Doutora Honoris Causa da Universidade Federal de Goiás (UFG) – segundo ela, o momento mais importante de sua vida.

Se você pensou que, depois de ficar famosa, ela passou a se dedicar exclusivamente à poesia, se enganou. A irrequieta Cora foi doceira até o fim da vida. Por sinal, até hoje as doceiras da cidade preparam doces glaçados com a técnica aprimorada por ela.

Cora morreu em Goiânia, onde estava hospitalizada por causa de uma pneumonia, em 10 de abril de 1985. O casarão à beira do rio Vermelho virou um museu em sua homenagem.

Que o exemplo de Cora, que nunca se deixou limitar por convenções sociais, inspire meninas de todo o Brasil. E que a sua história continue a nos lembrar que, enquanto houver vida e coragem, é sempre tempo de recomeçar.

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