Bárbara de Alencar, a primeira presa política do Brasil

A sertaneja Bárbara de Alencar teve uma vida que poderia facilmente virar romance nas mãos do seu talentoso neto, o escritor José de Alencar. Pena que, naquele tempo, tanta ousadia vinda de uma mulher não era bem vista.

Bárbara foi a matriarca de uma família de republicanos e, ela própria, uma representante ativa do movimento. E pagou um alto preço por isso.

Ela nasceu em Exu/PE em 11 de fevereiro de 1760, filha de um grande proprietário de terras português. Mudou-se para a casa de sua madrinha no Crato/CE ainda adolescente, para prosseguir com os estudos. É isso mesmo – num tempo em que mal havia mulheres alfabetizadas, Bárbara estudava.

Ela se casou aos 22 anos com um comerciante português, com quem teve cinco filhos. Ficou viúva aos 49 anos, quando então assumiu o comando dos engenhos e propriedades rurais da família.

De senhora de terras a revolucionária

Bárbara sempre chamou atenção por ser muito segura de si e ter opiniões próprias. Desde jovem, ela convivia com o pensamento iluminista dos intelectuais vindos da Universidade de Coimbra e dos padres formados no Seminário de Olinda.

Quando, em 29 de abril de 1817, recebeu a visita do filho Martiniano, seminarista em Olinda, e ele compartilhou o seu desejo de revolucionar o Ceará, libertando-o de Portugal, ela não teve dúvidas: abraçou o movimento na mesma hora.

Quatro dias depois, após a missa dominical na Igreja Matriz do Crato, Martiniano subiu ao altar e, diante da mãe orgulhosa e de uma plateia surpresa, discursou contra o domínio português, arrancando aplausos e gritos entusiasmados do público.

Dali, já hastearam a bandeira da independência: nascia a República do Crato… que durou só oito dias, antes de ser duramente reprimida pelas tropas da Coroa Portuguesa. Os filhos de Bárbara foram presos e ela teve seus bens confiscados e propriedades leiloadas antes de seguir também para a cadeia.

Identificada como uma das líderes dessa conspiração, Bárbara de Alencar viveu presa e algemada por quase quatro anos, viajando amarrada em lombo de cavalo entre as cadeias de Fortaleza, Recife e Salvador. Viveu com outros presos em meio às próprias fezes, coberta de parasitas, comendo em cochos de madeira usados para alimentar porcos.

Quando finalmente foi perdoada e pôde voltar para casa, abatida pelos anos de cárcere, já não era mais a grande proprietária de terras. Havia perdido tudo. Menos a fama de traidora da Coroa.

Incansável

Pensa que ela sossegou depois desse período tão difícil? Que nada. Continuava convicta de que o Brasil deveria ser uma república. Então, em 1824, aos 64 anos, apoiou mais uma vez os filhos revolucionários na Confederação do Equador.

O movimento foi reprimido com ainda mais violência que o anterior. Dois de seus filhos foram executados e ela foi jurada de morte. Escondeu-se em uma fazenda na divisa com o Piauí e lá morou até falecer, em 18 de agosto de 1832, aos 72 anos.

Curiosidades

  • Contamos lá em cima que Bárbara de Alencar era avó do escritor José de Alencar. Mas sabia que ele não é o seu único descendente no mundo da Literatura? Rachel de Queiroz e Paulo Coelho também são!
  • A revolta no Crato fez parte de um movimento maior: a Revolução de 1817, também conhecida como Revolução Pernambucana ou Revolução dos Padres.
  • Por sua luta e sacrifício pela Independência do Brasil, Bárbara de Alencar teve seu nome inscrito entre os Heróis e Heroínas da Pátria em 2014.
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