Clementina de Jesus, a voz ancestral

Quem é mais novinho talvez não tenha ouvido falar de Clementina de Jesus, a Quelé. É uma pena – mas já vamos resolver isso!

Vê-la cantar era uma experiência arrebatadora. “Devia ter uma voz linda”, você pode até ter pensado. Não era bem o caso. Clementina tinha voz grave, anasalada – segundo uma ex-patroa, lembrava um miado de gato.

Mas sua presença no palco era incrivelmente poderosa. Seu canto era – e continua sendo! – a lembrança viva de quão africana é a música brasileira.

A infância

Clementina de Jesus da Silva nasceu em Valença/RJ em 7 de fevereiro de 1901. Sua infância foi embalada pela voz da mãe, D. Amélia, que entoava jongos, lundus e cantigas de trabalho enquanto lavava roupas. Esses cantos, que vinham de seus antepassados, negros escravizados, ficaram guardados para sempre na memória da menina.

Quando Quelé tinha oito anos, a família se mudou para o subúrbio do Rio de Janeiro. Ali, ela começou a acompanhar o pai, que era violeiro, em suas cantorias. Também entrou para o coral do colégio onde estudava, se apresentando como solista em procissões e festas religiosas.

Com 18 anos, Clementina começou a trabalhar como empregada doméstica, profissão que exerceria por mais de 20 anos.

O samba como companheiro

Com pouco mais de 20 anos, Clementina começou a frequentar rodas de samba – até à casa de Tia Ciata ela foi!

Ficou amiga de compositores importantes e testemunhou o nascimento de escolas de samba muito tradicionais, como Mangueira e Portela. Por sinal, o amor de sua vida foi o mangueirense Albino Pé Grande, com quem se casou em 1940.

No mundo do samba, ela fez de tudo: dirigiu escola de samba, bloco de carnaval, ensaiou o coro feminino conhecido como as Pastoras de Heitor dos Prazeres. E seguiu cantando em festas, aqui e ali, de maneira informal.

Um início tardio

Em 1963, o jovem produtor musical Hermínio Bello de Carvalho ouviu Clementina cantar em uma festa. Ele ficou tão impressionado que a convidou para participar do projeto O Menestrel, que unia músicos eruditos e populares. Aos 63 anos, Clementina estreou nos palcos no Teatro Jovem, ao lado do violonista Turíbio do Santos.

A partir daí, ela não parou mais. Gravou cinco álbuns solo e fez inúmeras participações em gravações de outros artistas. Viajou por todo o Brasil, em apresentações que combinavam samba e partido alto com os cantos tradicionais que aprendera na infância. Fascinou músicos e fãs que tiveram a chance de vê-la ao vivo. “Era a África na minha frente”, afirmou Milton Nascimento, depois de assistir à sua apresentação no Teatro Opinião.

Reconhecimento póstumo

Em seus últimos anos de vida, Clementina foi pouco lembrada no cenário musical brasileiro. Morreu pobre, em decorrência de um derrame, em 19 de julho de 1987.

Anos depois de sua morte, foi redescoberta e teve a sua importância reconhecida. Ela, que já tinha sido homenageada em vida pelas escolas de samba cariocas Lins Imperial e Beija-flor de Nilópolis, virou enredo da Tradição, do Rio de Janeiro, e da Mocidade Alegre, de São Paulo. Sua história rendeu biografias, um espetáculo musical e um documentário. Recebeu, in memoriam, a Ordem do Mérito Cultural no grau de grã-cruz.

Sabe do que mais? Melhor do que conhecer mais sobre Clementina é ouvi-la! Que tal começar com o especial que a Rádio Câmara criou em homenagem aos 120 anos de seu nascimento?

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