Criança não namora! – Conversando sobre

Quem nunca presenciou – ou até mesmo foi alvo, na infância – de piadinhas sobre namoradinhos ou namoradinhas? Ou fugiu, na hora de soprar as velinhas, só para não ouvir cantarem “com quem seráááá”? Falar sobre namoro, apesar de ser uma prática ainda muito comum e vista como brincadeira, pode ser prejudicial aos pequenos.

Parece exagero, mas não é. Tudo que falamos para nossas crianças pode ter um impacto duradouro em seu desenvolvimento emocional, psicológico e até físico, já que elas estão em pleno processo de construção de sua identidade e autoestima.

Infância é fase de descobertas, aprendizado e crescimento. É tempo de brincar, fazer amigos, descobrir a si mesmo e o mundo ao redor, e não se preocupar com a complexidade de relacionamentos amorosos. 

Apresentar precocemente conceitos como namoro pode causar nas crianças uma pressão desnecessária, fazendo-as acreditar que precisam atender a certas expectativas, que devem se comportar de determinada maneira para serem aceitas e admiradas. Isso pode causar ansiedade e estresse, baixa autoestima e até sexualização precoce.

Namoro é para adolescentes e adultos!

Na infância, as relações se baseiam em afeto. Ao atribuir às interações entre os pequenos significado romântico ou adulto, há o risco de que as crianças sejam apresentadas a elementos próprios da sexualidade adulta, como erotismo, toques íntimos, em uma fase em que elas não estão emocional ou cognitivamente prontas para isso. 

Especialista em Educação Sexual, Emocional e Prevenção ao Abuso Sexual, a psicóloga Beatriz Faria afirma que “ao contrário da sexualidade adulta, que inclui erotismo, a infantil é constituída por um único polo: o afeto. O carinho, a capacidade de se fascinar, noções de intimidade e também sobre o próprio corpo são os constituintes. Então, se não há um pólo erótico, não há como incluir um namoro – relação esta que inclui, além do campo erótico-sexual, um comprometimento que não é possível para uma criança”.

Como conversar sobre relacionamentos com a meninada?

É função dos(as) adultos – pais, responsáveis, educadores(as) – proteger as crianças de experiências para as quais elas não estão prontas. O ideal é não incentivar e não perguntar sobre namoradinhos e namoradinhas. O mesmo vale para o “com quem será” após os parabéns nas festas infantis. Parece só uma brincadeira, mas gera constrangimento e ansiedade nos pequenos.

Mas e se a criança chega em casa dizendo ter um namorado ou namorada? “É bacana perguntar à criança o que ela entende como namoro, explicar que esse tipo de relação não faz parte da infância, mas que é normal gostar muito de um amigo e querer brincar bastante com ele ou ela”, enfatiza Beatriz Faria. Depois de escutá-la, deixe claro que crianças são amigas. Namoro é para adolescentes e adultos.

Criança tem que ser criança!

“Um ambiente saudável e sem elementos da vida adulta introduzidos na vivência infantil, um ambiente que valoriza a brincadeira e as relações pautadas na amizade e no respeito mútuo, é o que melhor proporciona o desenvolvimento das habilidades socio-emocionais das crianças, além de ser um fator protetivo de abuso sexual infantil”, completa a psicóloga.

Nesse sentido, vale ficar de olho nos conteúdos consumidos pela criançada. Muitas dancinhas ou brincadeiras “inofensivas” que circulam pelas redes sociais podem abrir brechas para a exposição indevida ou abusos.

Também é importante ter em mente que construções sociais, como o machismo, começam a ser moldadas na infância. Criar meninos para serem namoradores e meninas para esperarem por príncipes encantados reforça estereótipos de gênero ultrapassados e ensina formas de relacionamento nada saudáveis.

Muitos adultos podem se sentir constrangidos em tocar nesse assunto com crianças. Mas se o tema surgir – e ele está sempre à espreita, esperando só um “parabéns pra você” – é importante seguir a conversa com tranquilidade e escuta atenta. Respeitar as etapas da vida promove uma infância mais livre e divertida, com menos pressão e ansiedade, além de ajudar na prevenção de abusos e/ou violências.

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