Aída dos Santos

Seu nome é Aída dos Santos, mas poderia ser Superação. A ex-atleta do salto em altura é dessas pessoas cuja história arrepia e encoraja quem a escuta.

Aída nasceu em 1º de março de 1937, na favela do Morro do Arroz, em Niterói (RJ), em uma família com cinco irmãos. Os pais – um pedreiro e uma lavadeira – ganhavam muito pouco, e, desde cedo, os filhos começaram a trabalhar para complementar a renda da casa.

Aída estudava em um turno. No outro, fazia serviços domésticos em casas de família. E como o esporte cabia em uma rotina tão apertada? Com muito sacrifício e força de vontade.

Ela gostava muito de jogar voleibol. Mas, um dia, aceitou o convite de uma amiga que praticava salto em altura e se aventurou no atletismo. Sem qualquer experiência anterior, saltou 1,40 m com facilidade. O feito chamou a atenção: aquilo era quase o recorde estadual da modalidade, que era de 1,45 m.

Diante do bom resultado, Aída se animou a continuar treinando. Mas precisava praticar escondida – o pai não queria que ela seguisse no esporte, pois considerava a atividade “inútil”, já que não trazia dinheiro para casa. “Medalha não enche barriga”, foi o que ele disse ao saber de sua primeira vitória em uma competição.

Mesmo com a resistência da família e a dificuldade para se dedicar aos treinos, Aída tornou-se campeã estadual, brasileira, sul-americana e pan-americana no salto em altura. Às vésperas dos Jogos Olímpicos de Tóquio, em 1964, alcançou a marca de 1,65 m, garantindo sua vaga na delegação brasileira.

Imagine só: ser a única mulher em uma delegação de 68 atletas, representando o país diante de campeões do mundo inteiro. Infelizmente, Aída guarda lembranças dolorosas desse momento. Ela chegou ao Japão sem qualquer apoio – não tinha técnico, material de competição, uniforme, nada. Passava os dias treinando sozinha e circulando de bicicleta pela vila olímpica.

O desamparo doía, mas também impulsionava. De salto em salto, Aída chegou à final olímpica. Entrou na pista lesionada – havia torcido o pé nas eliminatórias -, mas conseguiu competir graças ao apoio de uma atleta cubana, que pediu ao médico de sua delegação que fizesse uma botinha de esparadrapo no pé da brasileira.

Aída terminou a competição em 4º lugar, com um salto de 1,74 m. Foi a melhor marca de uma brasileira em Olimpíadas até 1996. Ela voltou ao Brasil como heroína, com direito a buquê de rosas e desfile em carro dos bombeiros, mas recusou as homenagens. “Deviam ter feito isso antes. Ninguém me deu apoio antes; agora, quem não queria nada era eu”, relembrou em entrevista publicada no site do Comitê Olímpico do Brasil.

Aída seguiu competindo por mais alguns anos. Por seu desempenho como atleta, ganhou bolsas de estudo, que aproveitou muito bem: formou-se em Geografia, Pedagogia e Educação Física. Nesse meio-tempo, casou-se e teve três filhos, incentivados desde cedo a praticar esportes. Também deu aulas em escolas públicas e universidades até se aposentar.

Teve medalha, sim

O ouro olímpico chegou à família de Aída 44 anos depois. Valeska Menezes, uma de suas filhas, conquistou a tão sonhada medalha com a seleção brasileira de voleibol nos Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008.

Reconhecimento em vida

Em 2006, Aída dos Santos recebeu o Troféu Adhemar Ferreira da Silva, no Prêmio Brasil Olímpico. Em 2009, foi agraciada com o Diploma Mundial Mulher e Esporte, premiação especial concedida pelo Comitê Olímpico Internacional.

Seu nome foi eternizado em uma pista de atletismo, em um complexo esportivo e em uma premiação da Confederação Brasileira de Atletismo, criada em 2012.

Seu rosto também marca presença em um mural de 30 metros, pintado, em 2020, pelo artista plástico Marcelo Lamarca, no Caminho Niemeyer.

Esporte é para sempre

Aída e o esporte nunca se separaram. Depois de se aposentar das pistas de atletismo, ela voltou a jogar voleibol como atleta master. Ao lado da filha Valeska, mantém um instituto que promove a inclusão de crianças e jovens por meio do esporte.

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