Conversando com adolescentes sobre misoginia nas redes

O primeiro contato dos meninos com discursos misóginos raramente é explícito. Começa com um meme, uma gíria nova, uma trend que pretende fazer graça diminuindo mulheres. Parece só uma piada de mau gosto. Mas não é.

Esses podem ser os primeiros passos para a naturalização de uma visão de mundo que desvaloriza, discrimina e culpabiliza meninas e que impõe aos garotos modelos nocivos de masculinidade. Eles passam a encarar seus sentimentos como fraquezas; comportamentos agressivos como capacidade de liderança; e as mulheres como seres inferiores que precisam ser dominados.

De onde vêm os discursos misóginos?

Discursos que inferiorizam, controlam ou culpabilizam mulheres não são novos. Ao longo da história, estiveram presentes em diferentes sociedades e meios de comunicação. Na internet, grupos que difundem essas ideias circulam há muitos anos em fóruns e comunidades online – em geral, de forma mais restrita.

Nos últimos tempos, porém, esse tipo de conteúdo passou a ganhar maior alcance nas redes sociais por meio de influenciadores, canais, grupos e comunidades. Eles defendem uma suposta superioridade dos homens e apresentam modelos de masculinidade que associam força e poder a agredir, dominar e não demonstrar sentimentos.

Como os meninos chegam até eles?

Em geral, o primeiro contato acontece durante uma busca aparentemente inocente por vídeos com dicas de como flertar, ser mais atraente ou ganhar autoconfiança, por exemplo. A partir daí, entre orientações sobre “como manter conversas interessantes”, começam a aparecer sugestões como “faça sua mulher obedecer você”.

Basta assistir a um desses vídeos mais tendenciosos para que os algoritmos das redes entrem em ação, atribuindo um suposto interesse pelo assunto. Rapidamente, o menino pode passar a receber conteúdos cada vez mais radicais, que apresentam modelos nocivos de masculinidade e padrões pouco realistas de sucesso pessoal, afetivo e financeiro. Alguns desses discursos também culpam as mulheres pelas frustrações masculinas e incentivam a ideia de que eles precisam “acordar” e “retomar o controle” sobre as mulheres.

Por que esses discursos são tão convincentes?

Porque atingem pessoas em um momento muito vulnerável: a adolescência. Nessa fase, os garotos estão tentando compreender quem são, encontrar um grupo ao qual pertençam e lidar com os primeiros interesses amorosos (e suas possíveis frustrações).

Quando encontram comunidades que oferecem acolhimento, respostas simples para questões complexas e promessas de sucesso e reconhecimento, podem se sentir atraídos por elas. 

E, quando se convencem de que têm um inimigo comum, responsável por todas as suas dificuldades – as mulheres -, o sentimento de irmandade fica ainda maior.

O que os influenciadores desse movimento ganham com isso?

Basicamente, dinheiro e visibilidade. Quanto mais pessoas assistem, comentam e compartilham seus vídeos, maior tende a ser sua relevância para as plataformas e maiores podem ser seus ganhos financeiros com publicidade, monetização e venda de cursos, mentorias ou produtos digitais. Tornar-se cada vez mais conhecido também favorece aqueles que resolvem se candidatar a cargos políticos.

E as meninas, como ficam?

Os discursos misóginos estimulam atitudes hostis e ações violentas contra as meninas, dentro e fora das redes. Mas há ainda outro problema: quando elas internalizam essas crenças e passam a se diminuir para corresponder às expectativas masculinas. Podem acreditar que são inferiores ou aceitar relacionamentos abusivos, interpretando, por exemplo, um comportamento possessivo como prova de amor.

Será que algum menino ao meu redor está se radicalizando?

Fique atento a mudanças persistentes na forma de se comunicar. Alguns sinais podem ser:

  • Uso frequente de gírias como “alfa”, “beta” e “red pill”;
  • Uso de palavras ofensivas para se referir a meninas e mulheres;
  • Generalizações e demonstrações de ressentimento em relação às mulheres, como afirmar que “todas as mulheres são interesseiras”.

Observe também se houve mudanças no comportamento. Fique atento se ele:

  • Está se isolando;
  • Está evitando amigos e familiares;
  • Está passando muito mais tempo online;
  • Demonstra irritação ao ser questionado sobre determinados conteúdos;
  • Esconde ou apaga o histórico do que acessa;
  • Passa a repetir discursos hostis ou generalizações sobre meninas e mulheres.

E agora, como falo com ele?

A ONU Mulheres e o Equimundo, organizações internacionais que trabalham pela promoção do respeito entre as pessoas, recomendam os seguintes passos:

  • Mantenha a calma. O assunto é preocupante, mas uma atitude acusatória ou alarmista pode bloquear a possibilidade de diálogo.
  • Demonstre curiosidade. Em vez de proibir imediatamente o acesso a conteúdos extremistas, peça para assistir junto. Aproveite para saber mais: “O que você gostou nesse vídeo?”; “Por que isso é interessante para você?”.
  • Promova a reflexão. Enquanto assistem aos vídeos, faça perguntas como:
    • “Qual é a mensagem aqui?”
    • “Você acha que isso é verdade?”
    • “Essa mensagem é positiva para meninos? E para meninas?”
    • “Por que acha que esse conteúdo tem tantas visualizações?”
    • “O que você acha que a pessoa que produziu esse vídeo ganha dizendo isso?”
    • “Você notou a hashtag #publi? O que acha que ela significa?”
  • Crie um espaço de escuta. Permita que o menino fale sobre seus sentimentos e mostre que ele é ouvido e acolhido. Lembre-o de que meninos e homens têm sentimentos e podem demonstrá-los. Vulnerabilidade é muito diferente de fraqueza.
  • Ajude-o a encontrar comunidades positivas. Incentive a participação em grupos, atividades e referências que promovam relações respeitosas e apresentem modelos saudáveis e diversos de masculinidade.
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