Centros de treinamento de atletas: é preciso atenção

Em 8 de fevereiro de 2019, um incêndio no Centro de Treinamento do Flamengo, no Rio de Janeiro, deixou 10 meninos mortos e três feridos. O que todos eles tinham em comum? O sonho de se tornarem grandes jogadores de futebol.

Essa tragédia faz pensar que esse sonho, às vezes, custa muito caro. Além de ficar longe de casa, da família, dos amigos, nem todos os meninos que abraçam este ideal têm seus direitos respeitados. Em alguns casos, jovens trabalham jogando futebol sem receber salários por isso.

Menor aprendiz ou não?

No Brasil, a lei só permite o trabalho de jovens a partir de 14 anos como menores aprendizes.

Mas, no ambiente de treinamento, os clubes não consideram o jovem de 14 a 16 anos como aprendiz, mas sim como um adolescente que participa das categorias de base dos clubes formadores. Portanto, fica a critério do clube pagar ou não uma remuneração, explica a secretária executiva do Fórum Nacional de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil (FNPETI), Isa Oliveira.

Isa Oliveira conta que, na reformulação da lei Pelé, que estabelece normas gerais sobre o desporto, “houve um grande esforço por parte de instituições como o Ministério Público do Trabalho, o Conselho Nacional dos Direitos da Criança e Adolescente e, inclusive nós, para que fosse inserido um artigo que estabelecesse para os jovens de 14 anos a condição de aprendiz”. Ela lamenta, entretanto, que essa questão não tenha sido instituída.

Em 2011, a Lei nº 12.395/2011 determinou que as entidades formadoras de atletas devem oferecer a esses jovens assistência educacional, psicológica, médica e odontológica, transporte e convivência familiar. Entre as exigências mais importantes está a manutenção adequada do alojamento e das instalações desportivas, especialmente no que diz respeito à alimentação, higiene, segurança e salubridade.

 Apesar desta última regulamentação criar algumas condições favoráveis, Isa lamenta que a lacuna legal deixada pela lei Pelé siga fragilizando a situação do jovem atleta com idade entre 14 e 16 anos. Isto porque, como o jovem já pode trabalhar legalmente a partir dos 16 anos, ele pode celebrar um contrato igual ao dos adultos.

Em busca de um sonho

Daniel Marques tinha 14 anos quando passou por uma mudança radical em sua vida: saiu de casa para ir morar em outra cidade para tentar a vida como jogador de futebol. A mãe dele, Andrea Marques, lembra que o menino começou a jogar bola ainda no colégio, aos 7 anos.

Apesar de ser uma carreira incerta e cheia de obstáculos, Andrea sempre abraçou o sonho do filho. “Olhar ele jogar é uma coisa incrível, eu me emocionava”, afirma.

O início

Desde os 12 anos, Daniel realizava testes por indicação de técnicos que viam nele um destaque dentro dos campos. Aos 14 anos, o Goiás Esporte Clube chamou-o para mais um teste e foi preciso que ele se mudasse de Brasília para Goiânia. Para isso, ele contou com o apoio da mãe. “O Goiás não deu alojamento, apesar de o alojamento [do time adulto] ser excelente”, relembra a mãe. Ela recebeu a indicação de um pensionato que já recepcionava meninos que jogavam bola. “Eu fui conhecer o local, a gente pagava um valor por mês e ele tinha alimentação e motorista para levar e buscar na escola”. A dificuldade, no começo, foi encontrar uma escola que fosse flexível em relação a horários por causa dos treinos, e a solução foi colocá-lo em uma escola pública.

O que pensam os jovens atletas

Hoje Daniel tem 18 anos e conta como descobriu que o futebol era mais do que um sonho em sua vida. “Com 14 anos eu saí de casa, mas foi tudo bem tranquilo, eu passei por algumas coisas, mas sempre agradecendo por poder ir atrás do meu sonho”.

Para ele, mesmo contando com o apoio da família, a parte mais difícil é viver longe deles, de casa e dos amigos. “Conviver nesse mundo no início não é fácil, mas um dia, quando eu chegar lá, as coisas vão melhorar bastante”, conta o rapaz.

Daniel diz que a rotina, que é de muito treino, pode atrapalhar os estudos. Ele, que já terminou o ensino médio e pretende fazer faculdade, ensina que é preciso disciplina para conciliar as atividades. “Nunca é fácil acordar cedo, treinar cedo, ter uma boa alimentação, estar longe de casa, com saudade da família. Você vive 100% isso, mas você sempre pensa no futuro”.

Longe de casa

Para Isa, é importante considerar que, mesmo vivendo em boas condições, esses jovens muitas vezes são afastados de suas famílias em um momento em que o ser humano está em construção da sua identidade e autonomia. “Esse prejuízo é muito grande, mesmo em condições adequadas”, destaca a secretária.

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