Gina Vieira Ponte: educação que transforma

Gina era uma menina que cresceu em uma família onde os pais sempre incentivaram os estudos. Para eles, a educação era o mais precioso dos tesouros. Porém, ao entrar na escola a menina se deparou com um lugar diferente do que esperava. Sofreu com episódios recorrentes de racismo, agressões e exclusão. Mesmo assim, não desistiu.

Essa garota é a professora Gina Vieira Ponte. Ela conta que nunca era escolhida para participar de apresentações no colégio e foi se tornando invisível como mecanismo de sobrevivência. “Naquela época, estudavam juntos o filho do rico e do pobre e as meninas que eram escolhidas eram branquinhas e usavam roupa de marca”, explica.

A inspiração que mudou sua vida

As coisas na escola mudaram quando a menina que teve dificuldades para aprender a ler foi para o segundo ano e conheceu uma professora negra que finalmente a notou e viu seus esforços para se tornar invisível. A partir de então, ela recebeu atenção individualizada e passou a se integrar às atividades escolares.

Além de ser negra, Gina era de uma família humilde; seu pai, vendedor ambulante, e sua mãe, trabalhadora doméstica, se conheceram em Brasília. Os dois migraram para a capital federal em busca de um futuro melhor, com a certeza de que não havia outro caminho a seguir, senão o da educação. “Eles me passaram valores muito importantes, o principal foi em relação à honestidade, à integridade, que toda conquista tinha que ser pela via da legalidade, pelo que é justo a partir do próprio esforço. Eles me ensinaram a valorizar a escola”, ressalta Gina.

Um novo capítulo

Gina cresceu e se tornou professora da educação infantil na rede pública do DF. Passando para o outro lado, ela enfrentou uma nova dificuldade: a de engajar os alunos no processo educacional. Utilizando redes sociais, a professora passou a observar o comportamento dos jovens. Um dia, a professora Gina se deparou com um vídeo produzido e postado por uma estudante de 13 anos. “Ela se apresentava dançando de maneira extremamente erotizada, eu notei que a menina escolheu para produzir aquele vídeo uma música que era desrespeitosa às mulheres”, disse. Gina quis entender por que as meninas tinham esse tipo de comportamento.

A educadora concluiu que os modelos de conduta apresentados às meninas ou são as princesas frágeis, dóceis, sem protagonismo, sem capacidade de ação em relação à própria história e à própria vida, ou são pessoas que não dão ao próprio corpo o devido valor. “Eu percebi que eu precisava levar para as alunas outras referências que pudessem ser fontes de inspiração, referências que pudessem mostrar para as meninas que as mulheres são força, são potência, são inteligentes, que elas sempre estiveram na história da humanidade deixando grandes contribuições, fazendo parte da história ativamente”, conta Gina.

Mulheres Inspiradoras

Foi então que, no âmbito da Secretaria de Educação do DF, inicialmente no CEF 12 de Ceilândia, nasceu o projeto Mulheres Inspiradoras. A proposta é que os alunos leiam autoras notáveis da literatura brasileira e mundial, passando por Malala, Cora Carolina, Nise da Silveira e Zilda Arns, por exemplo, o que os leva a valorizar e contar a própria história.  “A intenção é a valorização de mulheres e o fortalecimento da identidade das meninas”, afirma Gina.

Na última fase do projeto, alunas e alunos devem escolher uma mulher do seu convívio que seja fonte de inspiração. A maioria escolhe mãe, avó ou bisavó. O próximo passo é realizar uma entrevista com e escolhida e, a partir daí, produzir um texto escrito em primeira pessoa no qual o aluno deve contar a história dessa mulher inspiradora.

Colhendo os frutos

Uma das primeiras mudanças que a professora percebeu ao longo do projeto é que os alunos se mostraram mais interessados nas atividades da escola.

Gina também conta que alguns alunos confessaram nunca terem lido um livro inteiro e que, por conta do projeto, despertaram para a leitura. “Recebi depoimento de meninas que tinham irmãs em casa e que, a partir do projeto, passaram a ter mais atenção em relação a conversar com a irmã sobre essas questões, a fortalecer a identidade”, relembra.

Prêmios

O projeto já ganhou 11 prêmios, sendo dois internacionais. Hoje, é programa de governo em 46 escolas do Distrito Federal. “Eu fui estudante da escola pública, sou professora da escola pública e acredito na escola como espaço de fortalecimento da democracia”, diz Gina.


 

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