Conversando com crianças e jovens sobre bullying

Houve um tempo em que não se falava em bullying. Não é que ele não existisse – o problema simplesmente era minimizado. “É coisa de criança, elas que se entendam” – esse era o pensamento corrente. E, assim, muitos adultos de hoje carregam marcas profundas de todo o sofrimento que viveram na escola, por anos a fio.

Se ainda resta alguma dúvida, vamos reforçar: bullying é um problema muito sério, que afeta a saúde mental, física e emocional de quem sofre. E não precisa envolver agressão física para ser grave – xingamentos e ameaças psicológicas também podem levar as vítimas à depressão e, em casos extremos, ao suicídio.

O que é bullying

É a intimidação repetitiva entre colegas de escola ou de trabalho. Pode se caracterizar por agressões físicas ou verbais. Mas, também, pode ser o ato de isolar alguém do resto da turma. As ações violentas podem ser as mais variadas, mas são bullying se apresentam as seguintes características: têm intenção de ferir; são repetitivas; ganham reforço se tiverem plateia; e envolvem a submissão da vítima ao agressor.

A culpa é de quem?

Nos casos de bullying, é comum haver troca de acusações entre escola e famílias em busca de culpados. No entanto, este é um problema que envolve diferentes aspectos – não é possível indicar um único fator que o provocou. Pode ser o contexto familiar dos envolvidos? Pode. Pode ser a forma como a escola lida ou deixa de lidar com o assunto? Também. E a nossa sociedade, tem sua parcela de culpa? Tem, por que não? E ainda há os elementos psicológicos de cada indivíduo em questão.

Se, por um lado, não há um só culpado, por outro, há vários responsáveis por enfrentar esse problema: todos nós, juntos. É preciso que família e escola estejam lado a lado, agindo de forma integrada, para uma solução mais efetiva.

Não é justo que uma criança se sinta mal por toda a sua vida escolar. Ou que chegue à vida adulta achando que faz parte do jogo oprimir as pessoas para conseguir o que quer.

Quem são os envolvidos em um caso de bullying?

  • A vítima: em geral, é uma criança retraída e com baixa autoestima, que não consegue reagir nem buscar ajuda. Pior: ela pode até mesmo achar que o agressor tem razão e que ela merece o que está passando.
  • Agressor: costuma ser uma criança que não sabe transformar a raiva em diálogo e que não se incomoda com o sofrimento que causa – pelo contrário, até se sente bem com isso. Por trás de suas ações, pode haver um desejo grande de ser visto como popular e poderoso.
  • Plateia: são os colegas que presenciam os abusos. A plateia pode ser passiva, quando se mantém em silêncio diante da violência, ou ativa, quando a incentiva. Seja qual for a reação, serve de combustível para o agressor, que se sente reforçado pelo grupo.

Uma abordagem diferente para cada um

A conscientização é fundamental entre os envolvidos em um caso de bullying. Mas ela se dá de forma diferente com cada um deles:

  • Vítima: a criança que sofre bullying deve ter a sua autoestima reforçada e se conscientizar de que ninguém tem o direito de agredi-la, sob nenhum pretexto. Ela deve ser incentivada a denunciar o que está acontecendo, e ser protegida contra retaliações.
  • Agressor: a criança que faz bullying precisa entender a gravidade e as consequências do que faz contra o outro. É importante que ela tenha a oportunidade de tentar reparar o mal que causou.
  • Plateia: os colegas que assistem às agressões precisam saber que, mesmo que não aprovem a violência, ao ficarem calados, reforçam o poder do agressor. Pode dar medo ou desconforto erguer a voz, mas se todos agirem juntos, isso muda o jogo!

O que a escola pode fazer?

Muitas práticas podem ser adotadas pela escola que deseja implantar um programa de prevenção e combate ao bullying.

Vale dizer que ações pontuais após a identificação de um caso são importantes, mas não resolvem o problema. Para se criar uma cultura anti-bullying, as ações educativas devem ser preventivas e fazer parte da grade curricular dos estudantes.

Confira algumas sugestões:

  • Criação de um canal de escuta, denúncia e tira-dúvidas sobre bullying: pode ser e-mail, telefone, caixa de sugestões, contato pessoal. Mas precisa funcionar de verdade.
  • Educação emocional: se o bullying pode se originar da dificuldade de lidar com sentimentos, é importante aprender sobre eles. Aulas especiais, rodas de conversa, palestras com especialistas podem ser ótimas iniciativas.
  • Aulas específicas sobre o tema: promover bate-papos com os estudantes é sempre uma boa ideia. Provoque-os com questionamentos – o que é o bullying? Já aconteceu com vocês ou com alguém que conhecem? Qual a diferença entre bullying e brincadeira? O que fazer se sofrer ou presenciar um caso? A quais canais/pessoas recorrer na escola? Estimule-os a consolidar o conhecimento criando campanhas informativas.
  • Quanto antes, melhor: as ações de conscientização devem começar na educação infantil. Por mais que não consigam absorver todos os conceitos relacionados ao tema, os pequenos já podem entender que há brincadeiras que são aceitáveis e outras, não. E que, diante de uma situação de abuso, devem contar a um adulto. Um recurso possível de se utilizar é o teatro de bonecos – encenar a agressão, o sofrimento, a intervenção do adulto e a reparação pode ajudá-los a fixar as informações.
  • Criação conjunta de estratégias de combate: ao formular as estratégias de combate ao bullying da sua escola, que tal convidar os estudantes a fazer parte dessa discussão? Peça que eles digam como esperam ver os casos tratados e que tipo de participação poderiam ter para resolvê-los.
  • Criação de grupos de agentes mediadores: em toda turma há estudantes que se destacam por exercerem uma liderança positiva natural entre os colegas. Essas crianças e jovens podem se tornar agentes mediadores, identificando situações potenciais de bullying e iniciando uma intervenção – podem, por exemplo, apoiar a vítima e chamar o agressor para uma conversa envolvendo outros adultos da escola.
  • Uma vez caracterizado um caso de bullying, a ação de combate deve ser firme e imediata. Os envolvidos não podem sentir que esse tipo de comportamento é tolerado pela escola.
  • O professor como exemplo: o educador é o modelo de conduta dos estudantes. Se ele deixa barato uma agressão na sala de aula, acaba por legitimar essa ação. Ao perceber que algo errado está acontecendo, é preciso chamar a atenção na mesma hora.

O que a família pode fazer?

  • Olho vivo: crianças nem sempre conseguem externar o que estão sentindo. Observe mudanças no comportamento. Se a criança está irritadiça, triste, desanimada, se de uma hora para outra não quer mais saber da escola, se as notas caem, tudo isso pode ser sinal de que algo não vai bem.
  • Ouvido atento: escute o que a criança tem a dizer, preste atenção a como ela se refere a si mesma e aos colegas. Se puder, brinque com ela – é um bom jeito de ver como ela está se relacionando com o mundo ao seu redor. Fale com ela sobre valores como empatia e respeito às diferenças. Estimule-a a falar sobre o que sente.

KiVa – a experiência finlandesa

Achou curioso esse enfoque da plateia nos casos de bullying? Ele veio do método KiVa (Kiusaamista Vastaan – ‘contra o assédio’, em finlandês).

Desenvolvido em 2009 pela Universidade de Turku, na Finlândia, o KiVa tem obtido excelentes resultados no combate ao bullying no mundo todo – inclusive na América Latina. Ele inova ao tratar as testemunhas como parte importante da solução do problema.

O KiVa também investe em ações contínuas de conscientização para a prevenção do bullying, com aulas especiais, rodas de conversas e o uso de jogos.

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