José do Patrocínio – um homem chamado revolução

Ilustração. Fundo contém diferentes letras espalhada. No centro, imagem de um homem, dos ombros para cima. ele tem pele parda, cabelos curtos, escuros e encaracolados. Barba escura, olhos escuros e expressão séria. Usa paletó cor de vinho, camisa preta e gravata borboleta escura.

 

A vida do “Tigre da Abolição” é recheada de fatos, no mínimo, curiosos. Nascido em 9 de outubro de 1853, José Carlos do Patrocínio era filho de Justina, uma jovem africana escravizada, e do padre (sim, padre) branco João Carlos Monteiro.

Apesar de nunca ter assumido o filho, o pai-padre o trouxe para morar em uma de suas fazendas, na região de Campos dos Goytacazes/RJ. Ali, o menino viveu uma infância cercada de confortos, enquanto presenciava toda sorte de crueldades e injustiças praticadas contra os negros escravizados. E sentiu brotar dentro de si a revolta contra o regime que oprimia pessoas por causa da cor de sua pele.

Aos 14 anos, mudou-se para a cidade do Rio de Janeiro para continuar os estudos e viver por conta própria. Trabalhou como servente de pedreiro na Santa Casa de Misericórdia do Rio, e lá se interessou pelas ciências da saúde. Resolveu cursar Farmácia, formando-se em 1874.

Mas ninguém foi medicado pelo farmacêutico José do Patrocínio – ele não chegou a atuar na profissão. Em compensação, milhares se deixaram inflamar pelas palavras do jornalista apaixonado. Desde 1875, ele começou a publicar seus textos. Primeiro, no quinzenário satírico “Os Ferrões”; depois, na Gazeta de Notícias, inicialmente cobrindo a Semana Parlamentar, depois falando abertamente contra a escravidão e a favor da libertação dos negros escravizados.

Seu prestígio e importância foram crescendo ano a ano. Em 1881, fundou a Confederação Abolicionista, cujo Manifesto redigiu e assinou, junto com outros membros do movimento. No mesmo ano, comprou a Gazeta da Tarde, que deixaria seis anos depois para fundar seu próprio jornal, A Cidade do Rio.

Logo se tornou o principal nome do jornalismo abolicionista, e um dos líderes do movimento em todo o Brasil. Eloquente, brilhante, ele arrastava multidões em torno da causa. E não ficava só nas palavras, não! Também ajudava na fuga de escravizados e organizava campanhas para arrecadar recursos para a compra de cartas de alforria.

Em 13 de maio de 1888, viveu o ponto alto de sua vida: a assinatura da Lei Áurea, que pôs fim à escravidão no Brasil. No Paço Imperial, em meio a uma chuva de rosas, beijou as mãos da Princesa Isabel, a quem chamava de “loura mãe dos brasileiros”.

Mas a idolatria que tinha pela princesa foi também sua ruína. Por ela, Patrocínio defendeu a monarquia em tempos republicanos. Também foi acusado de coordenar as ações da Guarda Negra, um grupo de negros libertos que praticava atos violentos em comícios pró-república. Quando, enfim, quis aderir ao republicanismo, em 1889, foi rechaçado.

Em 1892, após escrever contra o então presidente marechal Floriano Peixoto, foi exilado na Amazônia. Voltou discretamente ao Rio em 1893. Até tentou reativar o jornal, mas já não contava com o prestígio de antes. Acabou desistindo definitivamente em 1902. Endividado, mudou-se para um barracão em Inhaúma.

Ali no subúrbio, dedicou-se a uma nova paixão: a invenção. Inspirado em um de seus ídolos, Santos Dumont, ele trabalhou incansavelmente para construir um dirigível de 45 metros de comprimento, batizado de Santa Cruz, que nunca chegou a voar.

José do Patrocínio faleceu em 29 de janeiro de 1905, em consequência de tuberculose. E, até o fim, mostrou que estava à frente do seu tempo: em sua escrivaninha, o artigo que escrevia no instante da morte era em defesa dos animais.

Você sabia?

  • O primeiro automóvel a circular no Brasil era de José do Patrocínio! Em 1892, ele trouxe de Paris um modelo a vapor, cujo barulho assustava os pedestres por onde passava.
  • Ele foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras. Sua cadeira é a 21.
  • José do Patrocínio casou-se com uma jovem branca a quem deu aulas particulares – era Maria Henriqueta, a Bibi. De início, o sogro, o capitão Emiliano Rosa Sena, foi contrário à união, mas depois aceitou o genro e até o ajudou a comprar seu primeiro jornal.
  • Já contamos essa história em outro texto, mas ela é tão boa que vamos repetir aqui. Em 1886, a prestigiada cantora lírica Nadina Bulicioff se apresentava no Brasil, a convite de Dom Pedro II. A ópera era Aída. Na cena de libertação da personagem-título, José do Patrocínio subiu ao palco com seis mulheres escravizadas. Neste momento, a cantora entregou cartas de alforria verdadeiras para elas, que se tornaram livres naquele momento. Tudo havia sido planejado por Patrocínio, que conquistara a adesão da cantora russa à causa abolicionista – ela até doou uma joia para a compra das cartas de alforria.
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