André Rebouças, um abolicionista à frente de seu tempo

No fundo da imagem há uma foto de um trem, em preto e branco e pouco foco. No centro da imagem há o desneho de um homem negro, de cabelos escuros, bigode e barba no queixo. Ele usa terno verde claro, camisa de colarinho branco e uma gravata preta amarrada como um laço.

Rebouças é nome de túnel no Rio, de avenida, em São Paulo, de cidade, no Paraná. Mas você sabe quem foi Rebouças e por que recebeu tantas homenagens? O sobrenome pertence a um engenheiro brilhante, baiano e negro. E mais: que conseguiu se destacar em pleno Brasil escravista.

André Rebouças nasceu na cidade de Cachoeira em 13 de janeiro de 1838. Mas, diferentemente da maioria da população negra da época, era de uma família de grande prestígio. Seu pai, Antônio Pereira Rebouças, era advogado autodidata, deputado e conselheiro do Império.

A família se mudou para o Rio de Janeiro em 1846. Ali, depois de alfabetizado pelo pai, André frequentou alguns colégios, até ingressar na Escola Militar. Graduou-se em engenharia pela Escola de Aplicação da Praia Vermelha e complementou seus estudos na Europa, entre fevereiro de 1861 e novembro de 1862.

Junto com seu irmão, o também engenheiro Antônio, André Rebouças ganhou notoriedade ao conceber o ousado projeto da estrada de ferro que ligaria a cidade de Curitiba ao litoral do Paraná, passando pelo Porto de Paranaguá. Ele ainda seria reconhecido pela construção das Docas da Alfândega e de Dom Pedro II e pelo desenvolvimento de soluções para o abastecimento de água da cidade do Rio de Janeiro.

O abolicionista visionário

Mas o feito que inscreveu o nome de André na História do Brasil se deu no campo político. Ele foi um dos líderes do movimento abolicionista, tendo participado da criação de diversas organizações, como a Sociedade Brasileira Contra a Escravidão, a Confederação Abolicionista e a Sociedade Central de Imigração.

Suas ideias eram muito avançadas. Ele defendia que simplesmente libertar a população escravizada, sem que houvesse nenhum tipo de reparação, não surtiria grande efeito. Para ele, a “escravidão não está no nome e sim no fato de usufruir do trabalho de miseráveis sem pagar salário ou pagando apenas o estrito necessário para não morrer de fome[…] Aviltar e minimizar o salário é reescravizar”[…].

André queria que o Brasil pós-abolição implantasse o que ele chamava de democracia rural – que as terras improdutivas dos grandes proprietários fossem repartidas e doadas às populações de ex-escravizados. Em outras palavras, reforma agrária.

Então, em 13 de maio de 1888, a princesa Isabel assinou a Lei Áurea. As ideias progressistas de André Rebouças ficaram fora da norma, evidentemente – os grandes proprietários de terra jamais aceitariam perder, além da mão de obra, as terras.

No ano seguinte, a República foi proclamada. Monarquista e amigo pessoal de D. Pedro II, André não aceitou o novo regime, decidindo seguir a família imperial em seu exílio. Embarcou com eles no navio Alagoas na madrugada do dia 17 de novembro de 1889, com destino à Europa.

Um triste fim

Por quase dois anos, ele permaneceu exilado em Lisboa, trabalhando como colaborador do jornal “Gazeta de Portugal” e correspondente do “The Times”, de Londres. Após visitar o velho amigo D. Pedro em Cannes, em abril de 1891, resolveu mudar-se para a França.

Em 1892, pouco tempo após a morte de D. Pedro, André aceitou um emprego em Luanda, Angola, onde permaneceu por 15 meses. Por fim, fixou-se em Funchal, na Ilha da Madeira, a partir de meados de 1893. À época, tinha a saúde fragilizada e estava muito deprimido.

Seu fim foi trágico – suspeita-se de que ele tenha cometido suicídio. Em 9 de maio de 1898, seu corpo foi resgatado na base de um penhasco, próximo ao hotel onde vivia.

Curiosidades

  • Amante da música erudita, André incentivou a carreira do jovem Carlos Gomes, apoiando-o na composição da ópera “O Guarani” (já ouviu o programa de rádio “A voz do Brasil”? Ele começa com a abertura dessa ópera!).
  • Conta-se que no último baile do Império, o famoso Baile da Ilha Fiscal, André convidou uma viscondessa para dançar. Ela virou a cara – não dançaria com um homem negro. A Família Real ficou tão indignada com a atitude que fez questão de que André tivesse como parceira de valsa a Princesa Isabel.
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