Conversando sobre os dois anos da pandemia

Há dois anos, entramos oficialmente em uma pandemia. A Organização Mundial de Saúde declarou que a doença causada pelo Sars-Cov-2, o novo coronavírus, tinha se disseminado por todo o planeta, com crescimento alarmante do número de infectados.

Desde então, o mundo não foi mais o mesmo.

No começo, pouco se sabia sobre o temido vírus – como era transmitido? Como evitar? Quais são os sintomas? E as sequelas?

Contra uma doença que ainda não tinha vacina e sobre a qual havia pouca informação disponível, a saída foi o isolamento social – ficar em casa, restringindo as saídas ao mínimo possível, e redobrar cuidados com higiene. Aprendemos a conviver com o cheiro constante de álcool em gel e com o medo, a cada tosse.

Não bastasse a Covid-19, houve uma verdadeira pandemia de desinformação, tão ou mais letal que o novo coronavírus. Divulgação de tratamentos equivocados, boatos sobre vacinas, minimização dos perigos da doença, ataques às formas de prevenção cientificamente recomendadas… a ciência passou por maus bocados.

A economia mundial também foi duramente atingida. Desde gigantes da indústria até pequenos negócios sofreram com a crise sanitária. Fechar as portas foi a única saída para muitos, levando ao desemprego milhões de trabalhadores nas mais diversas áreas.

Mas o pior, mesmo, foram as vidas perdidas. Segundo dados apurados até 11 de março de 2022, 6.029.789 pessoas morreram em decorrência da Covid-19 – 654.380 delas, só no Brasil. Um número que dói mais ainda se pensarmos que cada uma dessas pessoas era o amor de alguém. Você, mesmo, que está lendo este texto, deve saber de casos assim, não é verdade?

E, se para os adultos foi difícil, imagine como foi para crianças e jovens encarar uma situação tão cheia de incertezas, restrições e perdas. As recomendações eram explicar, conversar e, assim, ajudá-los a entender o que acontecia. Mas, por um bom tempo, as dúvidas foram partilhadas por todos – crescidos ou não.

Os impactos na educação

As consequências de dois anos de ensino remoto na educação brasileira ainda não são conhecidas em toda a sua extensão. Mas o que os pesquisadores do assunto têm identificado até agora não é nada animador.

Manter a concentração nas aulas por horas seguidas diante do computador, com tantas distrações em casa, foi duríssimo. Conseguir absorver novos conceitos vivendo a saudade dos colegas e professores, a falta de uma rotina ‘normal’ e as inseguranças da própria pandemia, também. Mas essas não foram as únicas dificuldades enfrentadas pelos estudantes mais prejudicados pelo ensino remoto.

Para alunos de localidades mais isoladas, ou em situação de vulnerabilidade social, faltou o básico: o acesso à internet, o equipamento para assistir às aulas, a merenda (muitas vezes, a única refeição do dia). Faltou o apoio dos responsáveis, que nem sempre conseguiam ajudar nas lições — por terem que trabalhar ou, ainda, por terem baixo nível de escolaridade. Alguns estudantes precisaram assumir o cuidado com a casa e com os irmãos mais jovens. Outros, com pais desempregados ou mortos pela Covid-19, largaram a escola para trabalhar e, assim, ajudar a complementar a renda da família.

Os efeitos disso ficam evidentes em diversas pesquisas: o número de crianças e jovens de 6 a 14 anos fora da escola explodiu, especialmente na fase de alfabetização. Por sinal, em 2021, o número de crianças não alfabetizadas na faixa entre 6 e 7 anos chegou ao ponto mais alto desde 2012.

O impacto é bem maior se levarmos em conta critérios como cor da pele e classe social. Crianças pretas, pardas e pobres foram as mais atingidas, aprofundando o abismo já existente na nossa sociedade.

E o que fazer para resolver problemas tão graves? Segundo especialistas, a solução passará por acolher e reintegrar os estudantes à comunidade escolar; buscar ativamente aqueles que não voltaram mais à escola; e, do ponto de vista programático, avaliar o que é indispensável aprender a cada ano escolar, identificar o que ficou faltando para cada aluno e criar grades flexíveis para trabalhar essas lacunas. Uma boa pedida é envolver os estudantes na solução. Por que não transformar aqueles que tiveram um bom desempenho durante a pandemia em monitores de determinadas disciplinas? Ou criar duplas de estudos, formadas por quem precisa aprender e quem pode ensinar alguma matéria?

A saúde mental na pandemia

Apesar de menos propensos a desenvolver formas graves de Covid-19, em comparação com os adultos, crianças e jovens também foram duramente afetados pela pandemia.

O sofrimento mental os atingiu de diversas formas. De uma hora para outra, foram afastados do convívio com a escola, os amigos e a família com quem não moram. A rotina de estudos, descanso e lazer foi desestruturada. O tempo em contato com a natureza diminuiu — e o de exposição a telas aumentou demais. O medo de adoecer e de perder quem amavam passou a ser uma constante. E estas não foram as questões mais graves.

De acordo com um estudo estatístico divulgado em outubro de 2021 pelo Imperial College London, desde o início da pandemia, 194.200 brasileirinhos perderam pelo menos um de seus cuidadores — pai, mãe ou outro familiar responsável. Confinados em casa, crianças e jovens também ficaram mais expostos à violência doméstica e ao abuso sexual praticados por pessoas de seu convívio próximo.

Em julho de 2021, um instituto de pesquisa ouviu 1315 adultos, responsáveis por menores entre 4 e 18 anos no Brasil. Os resultados são de cortar o coração: crianças e adolescentes ficaram mais medrosos e tristes durante a pandemia; sentiram muita falta do convívio social e dos amigos; e apresentaram sintomas depressivos, como alterações no apetite e no sono.

É difícil prever quando esta geração conseguirá se recuperar dos efeitos da pandemia. Os especialistas são unânimes em afirmar que a solução passa por mantê-los no ensino presencial, só fechando as escolas como último recurso. Mas, para que esse convívio seja seguro, é preciso que crianças e jovens continuem com os cuidados para evitar a disseminação da Covid-19: vacinação, uso de máscaras, distanciamento social e higiene das mãos. Só assim é possível diminuir a circulação do Sars-Cov-2 e de suas variantes.

Cada um sentiu a pandemia de um jeito. Recuperar-se mentalmente dela também será um processo individual, que ocorrerá no tempo que for necessário. Escola e responsáveis devem apoiar e acolher quem está se readaptando à rotina e ao convívio social. Vale a pena bater um papo com a turminha e deixá-la falar livremente sobre compreensões, estratégias de sobrevivência, perdas e aprendizados.

E, claro: se as dificuldades estiverem muito persistentes, impedindo a criança ou o jovem de se desenvolver plenamente, recorrer à ajuda profissional é fundamental.

Fontes:

  • Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, do IBGE) do segundo trimestre de 2021
  • Estudo “Retorno para a escola, jornada e pandemia”, publicado pela FGV Social no início de 2022
  • Pesquisa Datafolha encomendada pela Fundação Lemann e pelo Instituto Natura, divulgada em julho de 2021
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