Pandemias e meio ambiente

Já parou para pensar o que a nossa relação com o meio ambiente tem a ver com pandemias como a da Covid-19?

Desde que o mundo parou para enfrentar uma pandemia provocada por um vírus – um ser microscópico tão simples que precisa de outros seres para se manter vivo! -, duas perguntas não saem da cabeça das pessoas: como ele chegou até nós? Como combatê-lo? Para a segunda pergunta, infelizmente, ainda não há resposta. Já para a primeira, existem explicações e elas estão ligadas à nossa relação com o meio ambiente.

Como assim?

A natureza está cheia de vírus com os quais sabe lidar muito bem. O problema acontece quando eles saem do ambiente selvagem e chegam aos seres humanos. Os animais têm defesas que nós não temos e é exatamente por isso que podemos adoecer gravemente ao entrar em contato com micro-organismos que lhes são inofensivos. Dois grandes responsáveis por esta aproximação indevida são a destruição de grandes áreas florestais e os eventos climáticos extremos. Junto com eles, a poluição e a falta de saneamento básico acabam agravando os efeitos das doenças.

Desmatamento e pandemia

Quando um ambiente natural é destruído, o vírus pode chegar às sociedades de diferentes formas: as pessoas passam a ocupar o espaço que era dos animais; os animais que tiveram seus habitats destruídos aproximam-se das pessoas; ou, ainda, a caça, o contato e o consumo de animais silvestres podem permitir que a transmissão para seres humanos aconteça.

O presidente da Sociedade Brasileira de Virologia, Fernando Spilki, destaca que 80% das doenças que atingem os seres humanos já circularam em animais. Entre os exemplos de doenças infecciosas transmitidas por animais, o pesquisador cita como exemplo o ebola, que assombra países da África desde 1976. “O ebola também é um vírus com origem inicial muito provavelmente em morcegos. Ele atinge primatas não humanos. A caça e o contato direto com macacos acaba levando à introdução de um vírus extremamente mortal na espécie humana, em surtos que infelizmente se repetem com uma frequência alta.”

Confira aqui a íntegra da entrevista com Fernando Spilki.

Mudanças climáticas e pandemia

As mudanças climáticas também são determinantes na disseminação de doenças pelo planeta, por causa da alteração no regime das chuvas e do aumento da temperatura média. Uma consequência conhecida disso é a proliferação de mosquitos que provocam problemas de saúde. Antes, eles eram verificados apenas em países tropicais. Na última década, entretanto, foram identificados surtos de dengue na França e na Croácia, malária na Grécia e chikungunya na Itália e na França.

O degelo do solo também pode trazer de volta problemas de saúde provocados por vírus e bactérias ancestrais. Isto porque, mesmo depois de terem ficado congelados por muito tempo, eles podem despertar se encontrarem um hospedeiro.

A mensagem é clara: se quisermos evitar doenças contagiosas mortais provenientes das mudanças climáticas, precisamos evitar o aquecimento global. E como se faz isso? Diminuindo pra valer a emissão de gases que provocam o efeito estufa. Esta é a recomendação de Tasso Azevedo, coordenador do Sistema de Estimativa de Emissões de Gases de Efeito Estufa do Observatório do Clima (SEEG) e do Projeto de Mapeamento Anual da Cobertura e Uso do Solo no Brasil (MapBiomas).

Entre as principais fontes de gases de efeito estufa, estão:

  • Queima de carvão mineral para geração de energia;
  • Queima de combustíveis derivados de petróleo em veículos de transporte;
  • Queimadas e desmatamento;
  • Atividade industrial;
  • Pecuária.   

Confira aqui a íntegra da entrevista que o Plenarinho fez com Tasso Azevedo.

Fatores agravantes relacionados ao meio ambiente

Pesquisadores da Universidade de Harvard descobriram que o coronavírus age de forma mais agressiva em pacientes que vivem em cidades com pior qualidade do ar, devido ao longo período de exposição dessas pessoas aos poluentes emitidos por veículos e indústrias.

No Brasil, uma preocupação a mais são as queimadas. “No caso específico de doenças respiratórias, como a Covid-19, as queimadas potencializam muito os efeitos da doença, porque um dos principais efeitos negativos da fumaça que sai dos incêndios é provocar doenças respiratórias, insuficiência pulmonar”, afirma Tasso Azevedo.

Vale lembrar que a poluição não precisa da pandemia para ser letal. Ela já mata mais de sete milhões de pessoas por ano, incluindo 600 mil crianças, segundo dados da Organização Mundial da Saúde.

Tasso também comenta a relação entre a qualidade do ambiente em que a gente vive e a possibilidade de dispersão de doenças. “Por exemplo: quando há um problema de saneamento, tem uma enchente e surgem doenças como leptospirose, transmitida por ratos, que podem se espalhar. Ou, como agora, quem tem condições sanitárias piores não tem acesso à água limpa, tem muito mais dificuldade de se proteger contra a expansão do coronavírus”.

O papel da ciência

A vacina é a melhor forma de defender as pessoas contra os vírus. O problema é que esses micro-organismos são mutáveis e podem criar novos códigos genéticos rapidamente. Isso dificulta a sua erradicação. Por isso, além de se proteger por meio da imunização, é fundamental minimizar as chances de que novos e mais potentes vírus cheguem até nós.

No caso da Covid-19, ainda não foi desenvolvida uma vacina capaz de evitá-la. Cientistas de todo o mundo têm trabalhado arduamente para descobrir uma fórmula capaz de diminuir o número de infectados e mortos em todo o mundo.

Para Tasso, “a ciência é a solução. Não tem uma saída para esse tema que não envolva a ciência, a necessidade de gerar novos remédios, vacinas, dados que permitam a gente definir a melhor estratégia para os próximos passos. Certamente a ciência e o olhar sobre a ciência sairão fortalecidos desse processo como um todo”.        

Mas o que eu posso fazer diante desse problemão?

Para reduzir os efeitos da pandemia, você pode muito! Lave as mãos com frequência usando água e sabão, ou então higienize-as com álcool em gel. Ao tossir ou espirrar, cubra nariz e boca com o braço, não com as mãos. Evite tocar olhos, nariz e boca com as mãos não lavadas. Mantenha distância mínima de dois metros de qualquer pessoa tossindo ou espirrando. Fique em casa sempre que possível. Durma bem e tenha uma alimentação saudável. Se precisar sair, use máscara.

Quanto às questões ambientais, você também pode fazer a sua parte. Toda ação, mesmo que pequena, já reduz o seu impacto no meio ambiente. Tente diminuir o consumo de produtos industrializados (que consomem muita energia na sua produção), de plásticos (eles vêm do petróleo, lembra?) e de carne (além do desmatamento para a formação de pasto, o processo de digestão dos bovinos libera metano, um poderoso gás do efeito estufa). Evite contato com animais silvestres e alerte outras pessoas sobre o risco que existe neste contato.

E você pode fazer ainda mais: conversar com seus pais sobre o que vocês comem, vestem ou usam e chamar a atenção sobre a importância de cobrar das indústrias fabricantes que elas sejam cuidadosas com o meio ambiente. Pode pesquisar, se informar, refletir, questionar sobre os problemas ambientais. Pode espalhar o que sabe entre os amigos, familiares ou pela internet. Pode transformar a suas propostas para o meio ambiente em projeto de lei e participar do Câmara Mirim.

O importante é discutir as mudanças que precisam acontecer para recuperar e proteger o meio ambiente, ajudando a criar uma nova consciência sobre a nossa forma de estar no planeta, revendo modos de produção, padrões de consumo, alimentação e necessidade de deslocamento, por exemplo.

Nós é que dependemos do meio ambiente, e não o contrário.

para-o-educador

As relações entre doenças e meio ambiente são amplas e podem ser exploradas de diversas formas em sala de aula. Aqui vão algumas questões que podem ser tratadas.

  • O que são vírus? Quais as diferenças entre vírus, bactérias, fungos e protozoários? Quais as doenças respiratórias transmitidas por vírus?
  • O contato com animais silvestres (seja para consumo ou exibição) é uma grande fonte de transmissão de doenças. Como evitar esse contato? Que doenças são transmitidas assim?
  • Grandes obras, como a construção de hidrelétricas, costumam provocar surtos nas populações locais. Peça para os estudantes pesquisarem alguns casos ocorridos no Brasil. Discuta com eles os resultados encontrados e sobre como as populações podem tentar se proteger em situações como esta.

Uma tarefa mais contextualizada é a elaboração de um “Diário da Pegada Ecológica”. Os estudantes devem registrar todas as atividades cotidianas que realizam (ex.: o que fazem ao acordar, quanto tempo demoram no banho, o que comem, como se transportam, se pedem para que algo seja comprado, do que brincam, como gastam o tempo livre, quantas coisas e que tipo de coisas jogam no lixo, etc.). No dia seguinte, conversar com eles sobre quais os possíveis impactos ambientais destas atividades (ex: consumo de energia, de água, de carne, uso de transporte público ou individual, etc.), chamando a atenção para o que pode ser modificado na rotina de cada um. A ideia é refletir sobre como podem melhorar sua “pegada ecológica”.

Material complementar

 Confira aqui a íntegra das entrevistas com Fernando Spilki e Tasso Azevedo.

Confira aqui a edição do programa Salão Verde (Rádio Câmara) sobre Microambiente e Zoonoses.

Confira aqui a edição do programa Salão Verde (Rádio Câmara) sobre Vírus e Meio Ambiente.

Reprodução autorizada desde que contenha a assinatura "plenarinho.leg.br - Câmara dos Deputados" e não seja para fins político-partidários

Comente!

Seu endereço de email não vai ser publicado. Campos marcados com * são exigidos