Trabalhando o empoderamento feminino em sala de aula

Ilustração de uma sala de aula, com quadro negro na parede e uma mesa bege com cadeira cinza, onde uma mulher está sentada. Ela tem cabelos lisos e castanhos presos atrás da nuca. Veste camiseta rosa, segura uma caneta com uma das mãos e com a outra, digita no teclado de um computador. Do lado do computador, uma pilha de livros e um caderno.

Em março, mês do Dia Internacional da Mulher, diversas iniciativas chamam a atenção para as conquistas femininas, e também para todos os desafios que ainda é preciso enfrentar. Em 2017, por exemplo, a ONG Save The Children publicou uma pesquisa que apontava o Brasil como um dos piores países para ser menina. Segundo o último Anuário Brasileiro de Segurança Pública, de 2018, uma mulher é assassinada a cada duas horas no Brasil. Na edição de 2020, os dados sobre estupro mostravam um registro a cada 8 minutos.

Essas informações não deixam dúvida sobre a urgência de se falar e educar sobre igualdade de gênero. E, quanto mais cedo, melhor. As normas que determinam o que é próprio de menino e o que é de menina circulam em todos os espaços por onde transitamos desde que nascemos. E é assim que, ainda muito pequenos, interiorizamos a desigualdade de gênero e passamos a acreditar que há coisas que só homens podem fazer.

Para romper preconceitos que determinam uma assimetria entre homens e mulheres, é preciso que haja uma mudança cultural, na qual a escola é parte essencial.

Este assunto é tão importante e urgente que a Organização das Nações Unidas (ONU) definiu, no Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) número 5, metas para garantir a equidade de gênero e o empoderamento das mulheres e meninas.

E como empoderar meninas?

Desenvolvendo atividades que permitam que meninos e meninas questionem e compreendam o papel e a importância de cada um na sociedade. Recuperando e valorizando a participação feminina na História do País, nas ciências, nos esportes, na arte, na política. Desconstruindo a ideia de que existem atividades próprias de um ou de outro gênero.

Ainda que não apareça de forma explícita, este aprendizado está alinhado às competências gerais da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), com destaque para:

9. Exercitar a empatia, o diálogo, a resolução de conflitos e a cooperação, fazendo-se respeitar e promovendo o respeito ao outro e aos direitos humanos, com acolhimento e valorização da diversidade de indivíduos e de grupos sociais, seus saberes, identidades, culturas e potencialidades, sem preconceitos de qualquer natureza.

Pode ser articulado com os seguintes objetos de conhecimento:

  • Os protagonismos da sociedade civil e as alterações da sociedade brasileira
  • A questão da violência contra populações marginalizadas
  • Anarquismo e protagonismo feminino

E ainda ser associado a algumas habilidades, como:

(EF02HI02) Identificar e descrever práticas e papéis sociais que as pessoas exercem em diferentes comunidades.

(EF05HI05) Associar o conceito de cidadania à conquista de direitos dos povos e das sociedades, compreendendo-o como conquista histórica.

(EF09HI09) Relacionar as conquistas de direitos políticos, sociais e civis à atuação de movimentos sociais.

(EF09HI08) Identificar as transformações ocorridas no debate sobre as questões da diversidade no Brasil durante o século XX e compreender o significado das mudanças de abordagem em relação ao tema.

(EF09HI26) Discutir e analisar as causas da violência contra populações marginalizadas (negros, indígenas, mulheres, homossexuais, camponeses, pobres etc.) com vistas à tomada de consciência e à construção de uma cultura de paz, empatia e respeito às pessoas.

(EF09HI24) Analisar as transformações políticas, econômicas, sociais e culturais de 1989 aos dias atuais, identificando questões prioritárias para a promoção da cidadania e dos valores democráticos.

(EF09HI25) Relacionar as transformações da sociedade brasileira aos protagonismos da sociedade civil após 1989.

Da conversa à ação

A seguir, algumas sugestões de como o empoderamento feminino pode ser trabalhado.

Falar abertamente sobre o tema

Organize rodas de conversa e crie oportunidade para ouvir o que meninos e meninas pensam sobre o lugar da mulher na sociedade. Pergunte se já ouviram frases como “o lugar de mulher é na beira do fogão” ou “menino não chora”, “futebol é coisa de menino; meninas têm que ser delicadas”.

Faça perguntas mais diretas como: quem dirige melhor (homem ou mulher?), cozinha melhor, limpa melhor a casa, cuida melhor dos filhos, joga videogame melhor, quem pilota melhor um avião, quem luta melhor numa guerra, quem é bom em matemática.

Peça que comentem se existem profissões que só homens podem exercer e expliquem. Para problematizar, leve ou apresente imagens de mulheres exercendo diferentes funções. Pergunte: O que homens podem fazer ou aprender que as mulheres não podem? Todos os homens são iguais entre si?

Possível desdobramento: peça aos(às) estudantes que idealizem uma campanha para as redes sociais que promovam uma reflexão sobre os preconceitos de gênero.

Entender conceitos como empoderamento feminino, feminismo e machismo

Com a turma dividida em pequenos grupos, peça que comentem o que entendem por machismo, feminismo e empoderamento feminino, e anotem. Depois, um membro de cada grupo deverá compartilhar as respostas que escreveu.

Complemente e corrija os conceitos, deixando-os anotados no quadro. Problematize perguntando se a luta pela igualdade de gênero só beneficia as mulheres. Como os homens também se beneficiariam.

Possível desdobramento: peça que pesquisem sobre movimentos e iniciativas da sociedade para o empoderamento feminino e apresentem as principais reivindicações de cada um. Pergunte se os(as) estudantes identificam na escola situações semelhantes às que estes movimentos combatem. Se sim, como fariam para resolvê-las?

Esta atividade pode se desdobrar na elaboração de uma campanha interna para tratar os problemas identificados.

Abordar a importância das mulheres na história

Peça aos(às) estudantes que citem o nome de 10 homens e de 10 mulheres que foram importantes na História do País e do mundo. Anote em uma tabela. É bem provável que só consigam lembrar de figuras masculinas.

Explique como, durante séculos, a participação e protagonismo femininos foram limitados no âmbito social, religioso, político e científico. E, mesmo quando conseguia romper barreiras, a presença feminina costumava ser omitida da narrativa histórica.

Problematize comentando sobre como os fatos são contados a partir de uma perspectiva masculina, em que são os homens que se destacam. Pergunte sobre os possíveis motivos desta situação. Com que objetivo?

Possível desdobramento: Apresente aos estudantes o e-book Brasileiras inspiradoras. Peça que identifiquem as mulheres que já conheciam ou que comentem se lembrarem de alguma que não está contemplada na publicação. Se houver, os(as) estudantes podem pesquisar sobre a biografia delas e escrever textos para apresentá-la à turma. Ah, e poste o texto do(a) estudante ou o nome da personagem no campo de comentários do nosso e-book. Vamos adorar conhecê-la.

Uma outra perspectiva para esta atividade é pedir que entrevistem mulheres importantes de suas vidas e escrevam a biografia delas para contar para a turma. Existe um projeto educativo muito bonito da professora Gina Ponte, com excelentes resultados. Se quiser conhecê-lo, clique aqui.

Incentivar a leitura de livros escritos por mulheres ou sobre mulheres

Pergunte quantos livros de escritoras mulheres já leram. Peça que citem seus nomes e pensem se conhecem mais autores homens. Leve para aula exemplos de escritoras que escreveram sob um pseudônimo masculino.

Disponibilize livros escritos por mulheres, mas também livros que contam a história destas mulheres. Leia com estudantes trechos das obras e comente o contexto social e político da época delas. Problematize comentando sobre a situação da mulher hoje. Como eles(as) a percebem? Quais os afastamentos e os pontos de encontro entre passado e presente?

Possível desdobramento: organize um grupo de leitura de obras escritas por mulheres ou que contem a história de mulheres que se destacaram.

Promover debates sobre violência de gênero a partir de notícias recentes

Peça que os(as) estudantes pesquisem na internet notícias sobre casos de violência contra a mulher, sobre as estatísticas mais recentes. Eles(as) devem analisá-las e comentá-las com a turma. Peça que digam quem são os agressores mais comuns, o que os moveu. Peça que definam o termo feminicídio e o que ele significa.

Problematize comentando que a discriminação contra a menina hoje é a violência contra a mulher de amanhã. O que eles(elas) entendem com esta afirmação? Faz sentido para eles(as)?

Possível desdobramento: Apresente o vídeo O que é feminicídio e converse sobre a importância de, desde muito cedo, refletir sobre as origens deste problema. Deixar que digam o que pensam e como viabilizar um combate efetivo ao crime.

Conhecer movimentos pelo empoderamento feminino

Peça que pesquisem ações ou projetos que tenham como objetivo desconstruir os estereótipos de gênero. O resultado da pesquisa deve ser compartilhado com a turma. Há homens envolvidos nos exemplos que encontraram?

Problematize chamando a atenção para o fato que empoderamento feminino não deve ser uma luta só das mulheres. Os estereótipos de gênero limitam a capacidade tanto de homens quanto de mulheres para desenvolverem suas aptidões pessoais, terem uma carreira profissional e tomarem decisões sobre suas vidas e projetos vitais.

Possível desdobramento: organize um coletivo com os(as) estudantes que discuta questões de gênero e promova ações de conscientização dos(as) colegas e da comunidade escolar.

Analisar letras de músicas

As músicas costumam traduzir o contexto sociopolítico em que são produzidas e muitas delas revelam o modo com uma determinada época pensa o governo, o trabalho, as relações humanas, o papel do homem e da mulher. Por isso, podem se tornar importantes ferramentas educativas.

Peça que os(as) estudantes pesquisem o lugar da mulher na música brasileira. Além de refletir sobre a letra, identificar o autor(a), data do lançamento. É interessante que tentem traçar um panorama histórico deste lugar e compará-lo. Houve mudanças? De que tipo? O que as letras revelam da época em foram escritas? Quais os valores associados?

Problematize mostrando como, nos dias de hoje, são comuns as que têm letras de caráter machista, misóginas, da cultura do estupro e da objetificação e violação da mulher. Por que acham que isso acontece? E o que este tipo de letra reforça?

A música também pode servir para uma conversa sobre mulheres nas artes. Apresentar a história de mulheres como Tia Ciata e a compositora Chiquinha Gonzaga. A ideia, neste caso, é valorizar a produção cultural feminina.

Fomente a equidade em todas as disciplinas

Seja em ciências ou nos esportes, meninos e meninas devem ser estimulados a participar da mesma maneira. É fundamental não desacreditá-los, não aceitar menos de um ou de outro porque o gênero justificaria uma menor capacidade para determinada área.

Criar times mistos, grupos de trabalho mistos em que todos(as) participem na mesma condição. A desigualdade de gênero reforçada desde muito cedo afeta não só a percepção sobre a identidade e individualidade, mas também os referenciais que meninos e meninas recebem do que “podem” ou não fazer.

Problematize conversando sobre a escolha de uma profissão. Peça que digam a profissão que querem seguir e anote no quadro se foi um menino ou uma menina que falou. Depois analise com eles(as) os resultados. É bem provável que haja uma divisão entre a área de exatas para o homem e de humanas para a mulher. Chame a atenção para o fato de que é comum que meninas se afastem de suas reais áreas de interesse porque temem o preconceito.

Referências:
Escola da Inteligência, Nova Escola, Eduxe, Iberdrola.

Reprodução autorizada desde que contenha a assinatura "plenarinho.leg.br - Câmara dos Deputados" e não seja para fins político-partidários

3 Comentário(s)

  • by Deoclides Nunes postado 23/03/2021 17:19

    Olá,  
    Meu nome é Deoclides Nunes, sou professor de geografia temporário no Distrito Federal e tenho um canal, onde falo sobre assuntos e temas relacionados à geografia. Minha esposa Luanna Sousa também é professora no DF, e nesse bimestre ela está aplicando um conteúdo sobre Brasília e observamos no site alguns textos e vídeos legais, fora outras coisas, aliás achamos o site muito rico em vários aspectos, e nós gostaríamos de saber como funciona, se poderia ou não fazer a divulgação desses materiais e usar na sala de aula.

    • by Turma do Plenarinho postado 23/03/2021 17:42

      Boa tarde, professor! Respondemos sua mensagem em nosso e-mail institucional! Abraços da Turma!

    • by Iago Luchini postado 29/03/2021 14:36

      que legal vc dar aula

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