Trabalhando o tema “Cultura e estereótipos sobre os povos indígenas”

Ilustração. Fundo é uma paisagem com céu azul, grama verde e no centro uma grande oca indígena. Na frente da oca, no centro da imagem, duas meninas indígenas de cabelos pretos, lisos, compridos, com franja e pinturas faciais em tons de vermelho e preto olham sorridentes para um celular cinza.

A Base Nacional Comum Curricular reconhece a necessidade de um conhecimento mais aprofundado sobre as culturas indígenas, suas peculiaridades, histórias, temporalidades, cosmologias e interrelações com outros povos.

No Brasil, os povos indígenas costumam ser retratados de forma caricata. Com a forma como a história da colonização é contada, criou-se uma ideia de que são preguiçosos, de que foram submissos à exploração europeia e de que se deixaram aculturar pelos ocidentais, deixando de ser indígenas. Outro estereótipo determina que o indígena, para ser considerado como tal, não pode utilizar celular, energia elétrica ou roupas de não indígenas.

Para romper com visões equivocadas e com a desinformação, é preciso ajudar os(as) estudantes a entenderem a importância destes povos para a formação da nossa sociedade, reconhecendo-lhes o valor cultural e político que têm. Afinal, para valorizar algo é preciso conhecer e construir uma identidade.

Professor(a), aqui queremos fazer um convite para o desenvolvimento de um trabalho em que estejam em destaque a presença destes povos no Brasil e os diferentes aspectos da cultura indígena.

BNCC

No texto da BNCC, está definido que as instituições escolares devem ter um claro foco na equidade. Este compromisso tem como objetivo reverter a situação de exclusão histórica que marginalizou grupos como o dos povos indígenas originários.

Em quase todas as componentes curriculares, existem indicações de trabalho sobre os povos indígenas, preferencialmente de forma transversal e integradora.

Em Educação Física, por exemplo, são objetos de conhecimento do Ensino Fundamental as brincadeiras dos povos indígenas, suas danças e lutas. Entre as competências específicas de Arte, a BNCC estabelece que o currículo deve explorar, conhecer, fruir e analisar criticamente práticas e produções artísticas e culturais dos povos indígenas, o que permite o diálogo com as diversidades e o reconhecimento da arte como um fenômeno cultural, histórico, social e sensível a diferentes contextos.

Em Geografia, a BNCC afirma que é imprescindível que os estudantes identifiquem a presença e a sociodiversidade de culturas indígenas para compreender suas características socioculturais e suas territorialidades.

Em História, a BNCC dá destaque às temáticas voltadas para a diversidade cultural e para as múltiplas configurações identitárias, destacando-se as abordagens relacionadas à história dos povos indígenas originários e africanos. O que deve permitir que os estudantes reconheçam estas populações como artífices da própria História do Brasil e da formação da sociedade brasileira.

Em Língua Portuguesa, os mitos são mencionados no Campo Artístico-Literário que contempla a leitura, a fruição e a produção de textos literários e artísticos, representativos da diversidade cultural e linguística.

Confira as habilidades da BNCC que dizem respeito aos povos indígenas:

(EF15AR25) Conhecer e valorizar o patrimônio cultural, material e imaterial, de culturas diversas, em especial a brasileira, incluindo-se suas matrizes indígenas, africanas e europeias, de diferentes épocas, favorecendo a construção de vocabulário e repertório relativos às diferentes linguagens artísticas.

(EF69AR34) Analisar e valorizar o patrimônio cultural, material e imaterial, de culturas diversas, em especial a brasileira, incluindo suas matrizes indígenas, africanas e europeias, de diferentes épocas, e favorecendo a construção de vocabulário e repertório relativos às diferentes linguagens artísticas.

(EF35EF01) Experimentar e fruir brincadeiras e jogos populares do Brasil e do mundo, incluindo aqueles de matriz indígena e africana, e recriá-los, valorizando a importância desse patrimônio histórico cultural.

(EF03GE03) Reconhecer os diferentes modos de vida de povos e comunidades tradicionais em distintos lugares.

(EF04GE01) Selecionar, em seus lugares de vivência e em suas histórias familiares e/ou da comunidade, elementos de distintas culturas (indígenas, afro-brasileiras, de outras regiões do país, latino-americanas, europeias, asiáticas etc.), valorizando o que é próprio em cada uma delas e sua contribuição para a formação da cultura local, regional e brasileira.

(EF04GE06) Identificar e descrever territórios étnico-culturais existentes no Brasil, tais como terras indígenas e de comunidades remanescentes de quilombos, reconhecendo a legitimidade da demarcação desses territórios.

(EF07GEO01) Avaliar, por meio de exemplos extraídos dos meios de comunicação, ideias e estereótipos acerca das paisagens e da formação territorial do Brasil.

(EF07GE03) Selecionar argumentos que reconheçam as territorialidades dos povos indígenas originários, das comunidades remanescentes de quilombos, de povos das florestas e do cerrado, de ribeirinhos e caiçaras, entre outros grupos sociais do campo e da cidade, como direitos legais dessas comunidades.

(EF03HI01) Identificar os grupos populacionais que formam a cidade, o município e a região, as relações estabelecidas entre eles e os eventos que marcam a formação da cidade, como fenômenos migratórios (vida rural/vida urbana), desmatamentos, estabelecimento de grandes empresas etc.

(EF03HI03) Identificar e comparar pontos de vista em relação a eventos significativos do local em que vive, aspectos relacionados a condições sociais e à presença de diferentes grupos sociais e culturais, com especial destaque para as culturas africanas, indígenas e de migrantes.

(EF06HI08) Identificar os espaços territoriais ocupados e os aportes culturais, científicos, sociais e econômicos dos astecas, maias e incas e dos povos indígenas de diversas regiões brasileiras.

(EF07HI12) Identificar a distribuição territorial da população brasileira em diferentes épocas, considerando a diversidade étnico-racial e étnico-cultural (indígena, africana, europeia e asiática).

(EF08HI14) Discutir a noção da tutela dos grupos indígenas e a participação dos negros na sociedade brasileira do final do período colonial, identificando permanências na forma de preconceitos, estereótipos e violências sobre as populações indígenas e negras no Brasil e nas Américas.

(EF08HI27) Identificar as tensões e os significados dos discursos civilizatórios, avaliando seus impactos negativos para os povos indígenas originários e as populações negras nas Américas.

(EF09HI26) Discutir e analisar as causas da violência contra populações marginalizadas (negros, indígenas, mulheres, homossexuais, camponeses, pobres etc.) com vistas à tomada de consciência e à construção de uma cultura de paz, empatia e respeito às pessoas.

(EF67LP28) Ler, de forma autônoma, e compreender – selecionando procedimentos e estratégias de leitura adequados a diferentes objetivos e levando em conta características dos gêneros e suportes –, romances infantojuvenis, contos populares, contos de terror, lendas brasileiras, indígenas e africanas, narrativas de aventuras, narrativas de enigma, mitos, crônicas, autobiografias, histórias em quadrinhos, mangás, poemas de forma livre e fixa (como sonetos e cordéis), vídeo-poemas, poemas visuais, dentre outros, expressando avaliação sobre o texto lido e estabelecendo preferências por gêneros, temas, autores.

Público-alvo: Estudantes do ensino fundamental

Objetivo: Identificar a população indígena do estado onde fica a escola e do País; identificar e valorizar a diversidade da cultura indígena no Brasil; combater os estereótipos e a desinformação; entender a importância dos povos indígenas na História do Brasil e na formação da cultura nacional.

Atividades propostas

O projeto será dividido em 6 aulas de 50 minutos cada.

Aula 1

Pedir que os estudantes anotem no caderno qual a primeira coisa que lhes vem à cabeça quando ouvem a palavra índio. Esta anotação será retomada na aula 5, que tratará de estereótipos.

Depois desta atividade inicial, se a escola permitir uso de celular em sala, pedir que, em grupo, pesquisem e anotem nos cadernos os significados das palavras índio e indígenas. Se não for possível, a pesquisa deverá ser solicitada um dia antes da aula, para que seja feita em casa.

Pedir que os estudantes comentem os significados que encontraram. Aqui é importante ter certeza de que tenham compreendido a diferença entre os dois, para que fique clara a razão pela qual é correto falar povos indígenas ou indígenas e não índio para se referir a este grupo.

Para casa: Os estudantes devem trazer para a aula seguinte os seguintes dados: quantos povos indígenas existem no Brasil, em quais estados do País vivem e se há algum(uns) no estado ou na cidade onde fica a escola.

Aula 2

No início da aula, pedir que compartilhem as informações que acharam. Para esta aula, é importante que o educador leve um mapa do Brasil com as divisões dos estados e outro mapa oficial (fonte IBGE), com a distribuição dos povos indígenas no território nacional.

O primeiro mapa a ser usado será o da divisão dos estados. À medida que os estudantes forem apresentando os dados de distribuição que encontraram, eles devem ser registrados neste mapa. Aproveitar para anotar no próprio mapa ou no quadro os nomes dos povos indígenas que vivem em territórios no estado da escola.

Em seguida, apresentar o mapa do Brasil com a distribuição territorial atual das terras indígenas e pedir que comentem fazendo uma comparação com o que construíram juntos. Há mais ou menos? Em que locais não pensavam que vivessem? Alguma coisa os surpreendeu?

Aproveitar para perguntar o que sabem sobre os territórios indígenas. O que já ouviram falar sobre, o que pensam sobre a relação do indígena com o território onde vive, se é parecida com a de quem vive na cidade e pedir que justifiquem as respostas. É importante levar o significado da palavra território para discuti-la com os estudantes à luz do que comentarem.

Comentar como, para os indígenas, a terra tem um valor que vai bem além do econômico. Não é só o lugar de onde tiram o seu sustento, mas é onde conseguem se relacionar com o sagrado e com sua ancestralidade, é o lar que compartilham. Por isso a Constituição brasileira garante que as terras onde vivem devem ser demarcadas (determinadas) pelo governo e devem ser respeitadas por todos.

Ao final da aula, pedir que escolham 3 povos indígenas entre os que identificaram.

Para casa: Os estudantes devem escolher um dos povos – mas é importante que os 3 sejam pesquisados. Eles devem buscar informações e imagens sobre a arte, tipo de morada, rotinas, importância do território, como as crianças são ensinadas e sobre seus principais mitos.

Recurso: Mapa do IBGE
Recurso do Plenarinho: Povos Indígenas

Aula 3

Dividir a turma em pequenos grupos, reunindo aqueles que tiverem pesquisado os mesmos povos. Eles devem juntar o material que levaram para a aula e preparar uma apresentação para fazer para o resto da turma. Marcar uma data para a realização da apresentação.

Ao final desta aula, apresentar o vídeo de Euclides, um menino indígena de 14 anos da tribo Terena, que mora no Mato Grosso do Sul. Euclides explica como é a vida de um indígena em sua tribo. Pedir que comentem se encontram semelhanças entre o relato dele e o material da pesquisa sobre os 3 povos indígenas.

Para casa: Pedir que perguntem aos familiares sobre ascendência indígena na família. Pode ser uma boa oportunidade para dar uma olhada na árvore genealógica de cada um.

Aula 4

Os estudantes devem contar o que descobriram sobre suas famílias. Quantos descobriram ter origem indígena. Se houver alguém com um parentesco mais próximo ou se o próprio estudante for indígena, é importante que ele (ou o parente) seja convidado a contar um pouco de sua história. Deixar um dia da agenda disponível para que os convidados possam se apresentar.

Problematizar perguntando por que sabemos tão pouco sobre nossos ancestrais indígenas. Quando muito, sabemos que “foi índia”, mas de qual etnia? Ao contrário, quando são ancestrais europeus, costumamos saber tudo.

Para casa: Pedir que leiam o texto A formação do povo brasileiro. É uma boa oportunidade para que percebam que nós temos, em nossas origens, os povos indígenas.

Recurso do Plenarinho: Post sobre a formação do povo brasileiro

Aula 5

Pedir que comentem o que acharam do texto, o que entenderam. Aqui é importante ressaltar a importância dos povos indígenas na história e na formação cultural do País.

Em seguida, pedir que abram os cadernos na página onde fizeram as anotações da primeira aula. Eles devem comentar se há diferença entre tudo o que aprenderam e o que tinham anotado.

Perguntar se conhecem a palavra estereótipo. Explicar que muitas destas primeiras anotações estão apoiadas em estereótipos e estes acabam sendo a base de preconceitos que nem sempre percebemos.

Esta aula pode ter dois desdobramentos:

1 – Os estudantes devem ler o trecho da carta de Pero Vaz de Caminha em que os indígenas são mencionados e, em seguida, comentar: qual a visão que se tinha dos indígenas? De algum modo, se relacionam com os estereótipos que identificaram?

Recursos para a aula:

Trecho da carta de Pero Vaz sobre os indígenas: “A pele deles é parda e um pouco avermelhada. Têm rostos e narizes bem feitos. Andam nus, sem cobertura alguma. Nem se preocupam em cobrir ou deixar de cobrir suas vergonhas mais do que se preocupariam em mostrar o rosto. E a esse respeito são bastante inocentes. Ambos traziam o lábio inferior furado e metido nele um osso verdadeiro, de comprimento de uma mão travessa, e da grossura de um fuso de algodão, fino na ponta como um furador. (…) Parece-me gente de tal inocência que, se nós entendêssemos a sua fala e eles a nossa, eles se tornariam, logo cristãos, visto que não aparentam ter nem conhecer crença alguma. Ora veja Vossa Alteza se quem em tal inocência vive se converterá ou não, ensinando-lhes o que pertence à sua salvação. Porém o melhor fruto, que nela se pode fazer, me parece que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar.”

Referência: Fundação Biblioteca Nacional. Departamento Nacional do Livro. A CARTA DE PERO VAZ DE CAMINHA.

2 – Apresentar o vídeo de Edson Kayapó sobre preconceitos que são comuns atualmente.

Em qualquer um dos caminhos escolhidos, é importante, ao final, problematizar os estereótipos. Por que achamos que indígenas, se usam tecnologia, vestem roupas urbanas, moram em grandes cidades, não são indígenas? O que faz de alguém indígena? Por que não se deve fantasiar de indígena no Carnaval, por exemplo?

Recurso do Plenarinho: Post “Os primeiros dias do Brasil”

Para casa: Pesquisar sobre personalidades indígenas atuais que lutam pelos direitos e pela valorização da cultura de seu povo. Algumas sugestões: Ailton Krenak, Daniel Munduruku, Raoni, Dayana Molina.

Aula 6

Os estudantes devem falar das personalidades que encontraram e por que as escolheram para apresentar. O que fizeram e fazem de mais importante pelo seu povo.

Em seguida, dividir a turma em dois grupos. Um deve ler sobre Ajuricaba e outro sobre Clara Camarão.

Depois da leitura, pedir que comentem o que há de comum entre os de hoje e os mais antigos. Há diferenças em suas lutas ou parece que há anos seguem buscando a garantia dos mesmo direitos?

Ao final, problematizar o desconhecimento sobre personalidades indígenas. Por que sabe-se tão pouco?

Recursos do Plenarinho: Clara Camarão e Ajuricaba

Avaliação

Conversar com os estudantes sobre o que aprenderam. Pedir novamente que definam os povos indígenas e digam o que acharam de mais importante nos aprendizados.

Vale a pena perguntar se eles gostariam de se aprofundar em algum determinado aspecto do que foi trabalhado. Se sim, combinar com a turma como ela gostaria de fazer este trabalho e que produtos podem resultar desta nova etapa.

Reprodução autorizada desde que contenha a assinatura "plenarinho.leg.br - Câmara dos Deputados" e não seja para fins político-partidários

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